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O lado sem glamour do futebol

Campo de futebol no Projeto Gerson em Niterói, na Concha Acústica, onde o barro toma lugar da grama e dificulta os treinos das crianças inscritas na escolinha.


A dura realidade encarada por jogadores e dirigentes de times pequenos do Brasil que se contrapõe àquela vivida pelos grandes clubes mostrada na mídia

No pais do futebol, o sonho de muitas crianças é se tornar jogador. Afinal, a bola está por todos os cantos: na escola durante o recreio, nas aulas de educação física ou na escolinha de futsal. Também é fácil encontrar referências aos grandes astros da pelota, nacional e internacionalmente. Todos eles querem ser um Messi, Neymar ou Cristiano Ronaldo, ganhar salários exorbitantes e jogar nas principais capitais da Europa. Mas e se eu te dissesse que nem sempre é assim? E se eu te dissesse que, ao invés do campo verdinho do Camp Nou, onde desfilam estrelas, as placas de publicidade estampam grandes marcas, e o mundo inteiro está torcendo por você, a realidade é composta por campos esburacados, estádios vazios, falta de bolas para treinar, inatividade em boa parte do ano e a dificuldade em captar recursos para manter a folha salarial do clube? Pois essa é a dura vida real encarada por grande parte dos jogadores profissionais do Brasil.

Conforme dados divulgados pela Confederação Brasileira de Futebol, 82% daqueles que vivem do futebol para sobreviver recebem menos de 1000 reais, enquanto apenas 3% recebem mais do que três salários mínimos. Por conta disso, muitas vezes, o jogador que precisa sustentar sua família não pode se ater somente à profissão na qual ele usa meiões, chuteiras e luvas para trabalhar. Os famosos “bicos” são a saída em casos assim, como diz o jogador do Nova Iguaçu, Caio Cezar:
           
“Vender em loja, vender bugiganga, trabalhar em obra, bater laje, rodar como Uber... tem várias formas de trabalhar além do futebol, mas paliativas, algo que não vai dar muito dinheiro. Muitos não conseguem arcar com uma faculdade, nem investir em outra área. É uma realidade que precisa ser contada, o mundo não é feito só de ‘Neymares’, ‘Cristianos’ ou ‘Messis’. Esses são a minoria .”, comenta Caio, a respeito das funções que os jogadores têm de exercer para ter um sustento a mais.

Essas dificuldades em se manter apenas com o salário pago pelos clubes vêm da falta de recursos que eles apresentam. Por não ter muita visibilidade no cenário nacional, e sem ter espaço nas grandes mídias, os investidores têm um pé atrás na hora de injetar dinheiro nos times e associar sua marca a eles, como diz o presidente do São Gonçalo Esporte Clube, Reginaldo Assad:

“Os clubes que são de serie B e C não atraem subsidio, não têm muita visibilidade, e por isso nem sempre o investidor quer ter a marca dele ali estampada”, relata Assad, que também bate na tecla em como a crise financeira que assola o país é um fator diferencial na hora de se conseguir patrocínios:

“A dificuldade é grande, ainda mais nessa época de crise, imagina como é para captar recurso e patrocínio. E os custos também são enormes Para se ter um clube profissional, precisa-se de um subsídio considerável, e, muitas vezes, não é possível, então acabamos tendo que fazer uma estrutura bem enxuta.”, completa.

 Um dos momentos em que o Estado do Rio mais foi prejudicado por conta dessa crise econômica foi a partir da derrocada das obras do COMPERJ (Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro), que, desde quando foram paralisadas, resultaram em grandes prejuízos em todo o estado, sobretudo na cidade de Itaboraí, onde fica sediado o projeto. Segundo informações do jornalista Rodrigo da Matta, repórter da Antena Esportiva Web Rádio, especializada na cobertura de clubes do Leste Fluminense, o clube da cidade, conhecido como Águia, chegou a ter dez patrocínios pelo uniforme no auge das obras. Hoje, com a crise na construção da unidade de gás passa, o clube não conta com nenhum patrocinador, e encontra dificuldades para entrar em acordo com um.

  Para superar algumas dessas adversidades, o apoio das federações, nesse caso particular da FERJ – Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, é fundamental para os clubes, já que elas são um grande meio pelo qual se obtém um capital que dê para arcar com gastos estruturais e folha salarial. Porém, na visão do dirigente do São Gonçalo, é necessário algo a mais do que isso, e que passa diretamente pelo comando dos demais times de menor projeção:

“O que mais falta é a união dos clubes menores, ter uma representação melhor, para quando nós formos reivindicar algo, em qualquer situação, possamos ter mais força, porque na quantidade, levamos vantagem, sozinho fica tudo mais difícil.”, ressalta Assad, que complementa dizendo que a FERJ tem contribuído de forma considerável com os clubes pequenos, sobretudo após o fechamento de contrato com a TV Globo que envolvia os direitos de transmissão da série A do Campeonato Carioca, o que acaba fornecendo, por tabela, subsídios para times de divisões inferiores. 

Inatividade: o inimigo que mora ao lado

Uma das principais adversidades enfrentadas pelos atletas de times de divisões inferiores é o período em que não estão ativos, ou seja, aquele em que não estão exercendo a sua profissão de jogador. Enquanto os grandes clubes do cenário nacional não sofrem com esse problema, por sempre terem competições para disputar, como Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores, clubes como o Nova Iguaçu, que, atualmente, se encontra na primeira divisão do Campeonato Carioca e no Campeonato Brasileiro da Série D, não tem a certeza do que lhes espera pela frente, nem garantia dos torneios que irão disputar, como menciona Caio:

“Isso varia, não tem competição. Por exemplo, esse ano de 2018 foi bom em sentido de competição, porque jogamos Campeonato Carioca, Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro da série D e vamos jogar a Copa Rio. Mas nós conquistamos a vaga no Brasileiro e na Copa do Brasil com a campanha no estadual de 2017. No próximo, a gente não tem essas vagas asseguradas, vamos ter que buscar via Copa Rio, porque o título e o vice campeonato dão essas possibilidades. Então tem ano que é só estadual e Copa Rio, que é um campeonato para os pequenos do RJ. O estadual dura três meses e a Copa Rio, esse ano, eles (FERJ) colocaram um regulamento ridículo de mata-mata, então pode acontecer de jogar duas partidas e ser eliminado, o que faz com que se fique inativo por 70 a 80% do ano.", relata o jogador do time da Baixada Fluminense, demonstrando a sua insatisfação com o formato do torneio que dá aos times pequenos do Estado a possibilidade de disputar uma competição a nível nacional. 

O empréstimo é uma saída costumeiramente utilizada pelos dirigentes dos clubes que passam por um período de inatividade. Para que não precisem pagar salários para seus atletas ao longo de todo o ano, as agremiações de menor porte emprestam seus jogadores para outros times, que poderão mantê-los ativos e pagar seus salários, como explica Assad, comentando como esse aspecto delicado é encarado na equipe que preside:

“Em relação aos atletas,  renovamos com os que achamos que vão ser utilizados no ano seguinte. Aí ficam trabalhando na academia, fazendo trabalho de musculação, todas orientadas pelo preparador físico. Mas isso por conta própria, eles ficam por seis meses parados, quando não são emprestados. Ano passado a maioria foi emprestada. Essa é uma válvula de escape para eles poderem estar em atividade, mas nem sempre a gente consegue”, conta Reginaldo.

Precariedade na estrutura do futebol

Caio, como jogador do Nova Iguaçu, diz que não tem nada a reclamar da estrutura oferecida pelo clube em que atua. Ousando até mesmo a dizer que, na equipe da cidade conhecida pela plantação de laranjas, a estrutura oferecida supera a encontrada em times grandes do país, o atleta faz questão de ressaltar que lá ele pode contar com um bom departamento médico, academia, quatro campos em bom estado para realizar os treinamentos, além do fato de que não há atraso no pagamento dos salários, que caem na conta no dia certo. Entretanto, nem sempre foi assim, como relembra o próprio jogador:

“Eu rodei em clubes em que tive que treinar em campos muitos ruins, ou até com falta de campo, de bola para trabalhar, só tinha água para beber, não tinha repositor, não tinha academia para fazer fortalecimento muscular. Já joguei em lugar que mal tinha roupa, a fisioterapia era precária, qualquer coisa que você sentia tinha que botar gelo e se virar, o departamento médico muito aquém, e todas essas coisas.”, comenta Caio, que preferiu não revelar o nomes desses prezando pela ética.


E essa é uma realidade encarada não apenas nos clubes profissionais, como também em escolinhas de futebol voltadas para crianças. No Projeto Gerson, iniciativa do ex-jogador campeão mundial pela Seleção Brasileira, Gerson “canhotinha de ouro”, localizado na Concha Acústica, em Niterói, os meninos que lá treinam encontram diversos problemas estruturais, que vão de vestiários mal ventilados e pouco espaçosos a treinos em um campo composto majoritariamente por barro, onde, na verdade, deveria estar a grama.

Contudo, os coordenadores do projeto ainda fazem de tudo pelas crianças. Ida a restaurantes para rodízio de pizza, marcação de consultas médicas para eles e fornecimento de lanches entre os treinos – ainda que sejam apenas modestas maçãs – estão entre as medidas tomadas por eles para que elas tenham melhores oportunidades, e enxerguem no futebol o caminho escolhido por Caio Cezar e outros inúmeros jogadores que andam por aí, à espera da grande oportunidade de suas vidas, mesmo que a luxuosa vida de craque seja para poucos.



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