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Desafios de ser negro na comunicação

Por Lara Barsi


Quando pensamos em jornalistas negros é fácil vir à memória personalidades como Glória Maria, Maju Coutinho, Zileide Silva e Heraldo Pereira, que estão à frente dos grandes telejornais da maior emissora do país. Um fato como esse pode servir de exemplo para o argumento de que “não existe racismo no Brasil”. Não se engane, esses nomes representam uma minoria no mundo da informação neste país. Negros jornalistas estão em menor número e já encararam lutas que colegas brancos não enfrentaram para conseguir o próprio espaço.

Glória Maria foi a primeira repórter negra da TV brasileira. (Foto: Acervo/ Agência O Globo)

Apesar do mercado jornalístico estar em constantes mudanças causadas pela evolução da tecnologia, ainda é possível verificar que a constituição étnica do meio está presa no tempo. Os brancos são maioria na área da comunicação, embora a população negra/parda esteja em maior número na sociedade brasileira. Como mudar essa realidade tão fixada em um país que continua segregando negros?

O mercado


Segundo o relatório de pesquisa “Perfil do jornalista brasileiro - Características demográficas, políticas e do trabalho jornalístico em 2012”, realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UFSC, em convênio com a Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ,  o percentual de negros entre os jornalistas era inferior à metade da presença de pretos e pardos no Brasil. A pesquisa aponta que, até então, apenas 23% dos jornalistas eram pretos ou pardos, enquanto 72% eram autodeclarados brancos.

O jornalista Carlos Nobre revela as dificuldades que encontrou no mercado por ser negro, quando ainda era estudante: “Era muito difícil entrar no mercado jornalístico não só por causa da cor, mas também porque esse mercado era muito específico, ou seja, pequeno, que privilegiava jornalistas filhos de jornalistas. Mas, na época, havia intensa discussão sobre cidadania e direitos, e este fato fortaleceu a inclusão negra. No entanto, o fato marcante era que o jornalista negro só sobrevivia se fosse muito bom mesmo. Além disso, sofria para se manter, pois, era difícil se destacar”.

Carlos aponta ainda um grande rótulo que cerceava a carreira de quem não era branco: “Em geral, só colocavam (o negro) para fazer reportagens criminais. Inclusive, os jornalistas negros que encontrei na profissão se destacavam nessa área somente, e não em economia, política, pois acreditavam que essa área estava reservado aos brancos. O mercado ainda reproduz esse estereótipo”.


Para a jornalista Camilla Pontes, é preciso haver mudanças nos cargos de gerenciamento para que profissionais negros, como ela, ocupem, de fato, o lugar que também pertence a eles: “Os empregadores precisam ser negros. Os negros precisam subir nas carreiras porque aí haverá uma mudança nos cargos de gestão. Hoje em dia muitas contratações acontecem por indicações e os negros não estão nessas rodas de pessoas que influenciam as contratações. Não adianta ter negros só numa ponta, só para cumprir uma cota, como força de trabalho. Tem que ter negros em todas as ramificações, na chefia, na tomada de decisões, só assim vamos parar de ser eliminados nas primeiras fases por 'não estarmos dentro do perfil'".

Academia


Professores negros ainda estão em menor número nas universidades. (Foto: Wavebreakmedia/ Freepik)

Mesmo com as novas políticas de cotas adotadas em vários setores, incluindo o espaço universitário, ainda há uma perceptível diferença entre o número de professores negros e brancos. O departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense, por exemplo, não conta, atualmente, com nenhum professor negro, comprovando assim o certo isolamento que o ambiente universitário tem da sociedade.

David Barbosa, estudante de jornalismo da UFF, conta que, mesmo passando por duas universidades, o contato com professores negros continua praticamente nulo: “Fiz três anos de Uerj e só tive uma professora negra (que não se reconhecia como tal). Na UFF, onde estou há um ano, ninguém. Todos os professores que me deram aula são brancos. Isso diz muito sobre o que a Academia é hoje”.

O estudante expõe também a crença de que essa realidade influencia diretamente em como os cursos são ministrados: “É super comum vermos ementas centradas em pensamentos europeus, brancos, em vivências das classes abastadas, brancas, enquanto que as questões negras raramente são discutidas. Um ou outro teórico negro é trabalhado, a maioria esmagadora é gente branca, europeia ou norte-americana”.

Reconhecendo que o racismo enraizado na sociedade pode influenciar nos processos seletivos, o que, consequentemente, prejudica ainda mais a inserção dos negros na docência universitária, a UFF produziu o “Manual de boas práticas para processos seletivos”, que admite o viés de julgamento implícito, que pode ferir os princípios da imparcialidade, e pode realizar-se em função da cor da pele, gênero, religião, orientação sexual, peso, entre outros. A publicação indica o melhor caminho para se confeccionar editais, compor comissões avaliadoras e até como proceder em processos de seleção.

O elitismo na Comunicação


Os estudantes negros, que em sua maioria são de classes mais baixas, travam lutas diárias para permanecerem nas universidades. Os fatores são diversos, tais como transporte público caro, alimentação com preços salgados, a demora para se locomover pela cidade, ou entre as cidades, já que muitos estudam e moram em municípios diferentes. Tendo em vista esses elementos, fica claro que uns são mais desfavorecidos que outros.

Na área de Comunicação, há também um outro fator de desequilíbrio, uma vez que existe uma grande demanda por uma qualificação, adquirida em cursos que costumam ser caros e em áreas mais nobres das cidades, fazendo com que um público mais específico, em grande parte pessoas brancas de classe média, tenha um acesso mais fácil.

David apresenta a realidade enfrentada: “Na universidade, meus colegas pretos são os que têm mais dificuldade de se manter estudando. Os auxílios disponíveis não cobrem todas as despesas. E aí nossa formação fica prejudicada. Num processo seletivo, sempre preferem o aluno branco da Zona Sul, que já viajou para o exterior várias vezes, que tem N cursos e vários conhecidos no ramo. Para o preto que vai sair da Baixada Fluminense, pegar duas horas de transporte público para trabalhar, é muito mais difícil”.

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