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Mais de 32km: a vida do estudante que mora longe da UFF

Por Suelen Fernandes
(Foto: Tânia Rêgo/EBC)











Conseguir se formar na Universidade dos sonhos demanda muitos sacrifícios. Estudar bastante no pré-vestibular, se dedicar para ter uma boa nota no Enem, esperar pelo resultado até descobrir se foi aprovado ou não... E não para por aí. Quando o aluno finalmente é aprovado, vem a questão principal: como vou chegar até lá?
Para que estudar seja possível, é necessário se locomover de sua residência até o campus, e isso, para grande parte dos estudantes, nem sempre é fácil. A UFF tem estudantes de diversas partes do Estado do Rio de Janeiro e abriga muitos estudantes de outros Estados do Brasil. Estes enfrentam muitas dificuldades para chegar até à faculdade e ir bem nos estudos. 
A principal dificuldade, é claro, são as viagens. Elas tomam grande parte do tempo dos estudantes que moram longe. A maioria mora a mais de 32 km de distância (distância mínima para conseguir Moradia pela UFF), e isso leva em média duas horas de viagem de ida e volta, dependendo da situação do trânsito. "Eu só vou pra casa pra comer e dormir, literalmente", diz Bianca Barbosa, estudante que faz o mesmo trajeto de 64 km há quatro anos. "Geralmente durmo cerca de 4h e depois levanto pra ir para a UFF". Tais viagens também contêm o perigo de atravessar o estado com os arrastões e assaltos a ônibus crescentes no Rio de Janeiro. "Às vezes rola uma tensão pelo risco", diz Pedro Mello, estudante que mora em Silva Jardim. "Já aconteceu de passarmos por alguns. Não sofremos de fato, mas estávamos perto quando aconteceu".
Os estudos dos alunos são afetados diretamente pela viagem. Muitas vezes falta a disposição e o tempo para sentar e estudar, e isso influencia diretamente no desempenho do aluno. O tempo que eles estão viajando de volta para casa é o tempo que eles poderiam usar para revisar matérias, ler os textos, fazer os trabalhos. O sono, fundamental para a aprendizagem, também é prejudicado pela falta de tempo. "Cochilo durante as aulas e ainda passo por constrangimento com os professores, que não sabem da minha realidade e acham que é falta de interesse ou preguiça. É bem desanimador", Silvia Macedo se queixa. 
Esse é um problema tão recorrente que quando feita a pesquisa para essa matéria, recebemos por volta de 400 comentários de alunos que passam pela mesma situação ou conhecem alguém que passa. 

A QUESTÃO FINANCEIRA

A questão financeira é outro fator: as viagens de ida e volta, além de cansativas, custam caro. Alguns alunos faltam aula para economizar dinheiro, que é gasto majoritariamente com as viagens. "Costumo pagar aproximadamente 30 reais por dia para ir à UFF", diz Igor Salles, morador do Méier. "Ficou inviável ir todos os dias e comecei a faltar. Estou perto de perder a matrícula".
Alguns até tentam trabalhar e estudar ao mesmo tempo, para conseguirem pagar as despesas com o transporte. Silas Macedo, estudante morador de São João de Meriti, fez isto por um tempo. Ele trabalhava em Botafogo, das 7h da manhã às 18h da noite — o mesmo horário em que começava sua aula na faculdade em Niterói. "O custo das viagens era exorbitante e era muito cansativo, porque eu saía de casa às 4h30 da manhã e só chegava às 1h, ou seja, eu dormia só por três horas", ele conta. "Os fins de semana eram os únicos dias que eu tinha pra estudar. Atualmente eu saí do emprego e estou só estudando. Também estou procurando estágio com uma carga horária muito menor do que a que eu tinha antes".
O Passe Livre Universitário, gratuidade concedida pelo governo, poderia ser de muita ajuda. Porém o cartão não poderá ser utilizado para viagens em trens, metrô, barcas e linhas intermunicipais ou linhas municipais fora do município do Rio, de acordo com o site do Rio Card. Ou seja, não contempla os estudantes que realmente precisam do benefício para ter melhor mobilidade.
As bolsas de assistência oferecidas pela UFF não são suficientes, pois as vagas são muito concorridas e as especificações requeridas não visam todos os alunos que precisam. Muitos alunos sequer tentam, inconformados com as condições pedidas, que vão de variados documentos até comprovações de vulnerabilidade. Os que tentam, não conseguem: "Já tentei bolsas pela UFF. Infelizmente eu não atendo a algumas exigências do edital", lamenta o aluno Jorge Gomes, morador de Tanguá. 


MORADIA

Se morar longe é o problema de tudo, por que não morar perto? Essa é uma alternativa recorrente no pensamento dos alunos que moram longe. Morar em repúblicas ou em apartamentos alugados em conjunto é uma prática frequente no corpo discente; contudo, não é viável para todos os alunos. Para alguns fica mais barato ir e voltar todos os dias do que alugar um apartamento nas redondezas da faculdade. 
A UFF oferece moradia para alunos que moram a mais de 32 km do campus em que estuda. Mas nem todos conseguem essa vaga, que é extremamente concorrida e que dá preferência a estudantes de fora do estado. Roberta Ruchiga, moradora de Cabo Frio, foi uma das poucas alunas a conseguir a tão disputada vaga. 
O processo para conseguir a moradia é aparentemente simples: a PROAES (Pró-Reitoria para Assuntos Estudantis) libera um edital online, o aluno se inscreve e logo depois é chamado para fazer entrevistas e consultas médicas. Se aprovado, ele pode se mudar para a Moradia poucos dias depois. 
O procedimento com Roberta levou, ao todo, quatro meses desde a inscrição até a liberação da vaga, um período longo para quem precisa dela com urgência. No entanto, a espera valeu a pena: "Antes sobrava pouco tempo para estudar e eu estava simplesmente exausta de toda a rotina. Agora, posso sair de casa 15 minutos antes da aula. Melhorou bastante minha qualidade de vida."


Para os alunos que não conseguem a moradia nem a bolsa, só resta a força de vontade para continuar a estudar e finalmente se formar. O pensamento de desistência é frequente entre eles. "Já pensei se o esforço realmente valia a pena. O sentimento de que estou ficando pra trás por causa disso é constante.", confessa a estudante Gabriela Marques. Porém, quando se pensa no quanto eles já sacrificaram para conseguir um bom futuro, eles decidem continuar seguindo em frente.



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