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O peso do preconceito

Por Júlia Sestero

"Enorme". "Baleia". "Tu é jovem e bonita para ser tão gorda". "Você tem um rosto lindo, se emagrecer, vai ficar perfeito". "Fofa". Quem é uma pessoa gorda, pelo menos alguma vez na vida já ouviu alguma opinião sobre o seu corpo, ou algum comentário desagradável, geralmente travestido de elogio ou preocupação, que a deixou em alguma situação desconfortável.  Seja aquela "piada", aquela brincadeira, um discurso mais violento ou até mesmo agressão. O que muitas pessoas não sabem, é que falas assim, são preconceituosas e têm um nome: Gordofobia!

(Foto: Mariana Godoy, para o ensaio "Empoderarte-me")

Você sabe o que é a Gordofobia? Gordofobia é o preconceito ou intolerância contra pessoas gordas. Muitas pessoas praticam e são gordofóbicas, até mesmo sem saber que são. Falar sobre esse assunto ainda é um tabu na sociedade, porque em sua maioria, muitos não consideram isso como um preconceito que afeta a vida das pessoas. É um problema social sério, que precisa ser discutido e amplamente combatido.

Desde muito pequenos, muitos jovens sofrem bullying e discriminação por ter um corpo gordo, considerado não aceito pelo padrão imposto pela sociedade. Algumas ofensas são mais marcantes que agressões físicas e são carregadas por quem as sofreu pela vida toda. "Eu sempre apanhava dos 'coleguinhas' na escola. Recebia apelidos como 'chupeta de baleia', 'baleia assassina', 'porca', 'botijão de gás'", diz a estudante de Administração, de 19 anos, da Universidade Federal Fluminense.

Uma pesquisa online feita pela reportagem de O Casarão, ouviu alguns depoimentos de estudantes sobre sua relação com o próprio corpo e como a sociedade os encara. Os depoimentos foram dados sem a necessidade de indicar a identidade, para não expor os participantes. Mais de 60% dos estudantes ouvidos, disseram ser saudáveis mesmo sendo gordos. Apenas 13% revelaram ter problemas de saúde, por causa do peso.

Qualquer forma de preconceito deve ser amplamente combatido e o relacionado a pessoas gordas também deve ter a sua atenção. A sociedade persegue corpos gordos, vinculando o ser gordo, ao sinônimo de ser doente. Palavras como epidemia e questão de saúde pública, também são frequentemente usadas para se referir a essas pessoas. A palavra gorda, geralmente é associada à negligência, descuido, mas o que não é levado em consideração, é que fatores como biotipo e genética também influenciam nessa conjuntura. "Sempre foi a questão de associar o fato de que se uma pessoa é gorda, ela também é anti higiênica", disse estudante de Educação artística da UFF, 29 anos. 

"A partir do momento que identifiquei que meu biotipo não era favorável a ser magro, eu foquei em ter saúde pois já vi muitos amigos que são magros, mas que se alimentam muito mal e por isso são cheios de problemas", comenta a estudante de Engenharia Química da UFF, de 21 anos.

Há muitas opiniões relacionadas ao corpo gordo, geralmente, associadas à preocupação com saúde. Por trás disso, há uma preocupação ainda maior com a estética do que um interesse em saber se a pessoa está saudável ou não.

A modelo plus size, Manu Mendes, de 35 anos, nos contou um pouco sobre a questão da gordofobia e a sua relação com o mundo da moda. "Ninguém está preocupado com a nossa saúde. Se as pessoas se preocupassem tanto com a saúde umas das outras, elas questionariam fumantes e alcoólatras da mesma forma como fazem com gordos. O que acontece é que elas se incomodam. Porque aprenderam que ser gordo é feio. E isso incomoda. Como elas não sabem lidar com esse incômodo, elas precisam exteriorizar esse sentimento. E é normal. Porque isso nos foi imposto desde sempre. Esse conceito de que o magro é bonito e saudável".

Devido a todo um discurso acadêmico, industrial e social sobre o corpo das pessoas gordas ser questão de saúde, um campo de pesquisas interdisciplinares conhecido como "fat studies", surgiu  com uma crítica consistente e rigorosa a estereótipos e estigmas relacionados ao corpo gordo. Alguns nutricionistas e estudiosos, procuram desmistificar e desassociar esse par "gordo versus saúde", mostrando que o indivíduo com gordura corporal, também pode ter um corpo saudável, que deve ser aceito socialmente. 

Pessoas gordas sofrem em diversos âmbitos sociais. Seja em espaços públicos e privados com falta de cadeiras maiores, nas escolas, no ambiente familiar, na indústria alimentar, farmacêutica e principalmente da moda. O gordo é limitado por diversas fronteiras estéticas que servem como um entrave no seu dia-a-dia.  

"Os lugares como um todo não foram feitos pensando no corpo gordo. Na minha opinião, lugares especiais para pessoas gordas também são bastante problemáticos. Visto que GRANDE parte da população é composta por pessoas gordas ou ditas 'acima do peso', assentos de lugares públicos como um todo (aviões inclusive) deviam ser mais adaptáveis", considera a estudante de Ciências sociais, de 21 anos que contribuiu com nossa pesquisa. 

A indústria vende o discurso de um corpo magro e fitness, é um mercado muito rentável e lucrativo. Até mesmo quando a indústria se abre para pessoas gordas, é difícil encontrar um lugar de fala, no qual o preconceito ainda é presente, dificultando, ainda mais, a pessoa gorda a aceitar o próprio corpo. 

Manu lembra a dificuldade de se aceitar quando toda a sociedade estigmatiza sua aparência."Nossa autoestima é posta à prova todos os dias. Eu estou satisfeita com meu corpo. Mas não vivemos sozinhos. Estamos em uma sociedade gordofóbica e isso dificulta bastante esse processo", afirma. O peso do estigma influencia, inclusive, a moda plus size, uma vez que as modelos ganham menos ou trabalham até de graça. "O que se vê é uma busca por modelos sem barriga, com manequim menor. Geralmente as que vestem manequim 44/46 são as que mais trabalham. O mercado plus size já não é muito valorizado. Como é um mercado que ajuda na auto estima de muitas mulheres, muitas marcas utilizam isso para tirar vantagem. Prometem visibilidade, e as meninas acabam trabalhando em troca de ter fotos publicadas em redes sociais, o que desvaloriza ainda mais a profissão", diz a modelo.

Inspiração e aceitação

Na sociedade, os modelos de inspirações para os jovens, geralmente, são pessoas magras de acordo com o padrão estético imposto socialmente. Desde influenciadores digitais, a artistas, e grandes personalidades conhecidas mundialmente, a visão de mundo transmitida, é que existe um modelo perfeito de corpo e aparência diretamente ligado à felicidade. 

Nos últimos anos, mulheres gordas começaram a entrar no mundo da música, ter mais visibilidade, carregando a bandeira da representatividade. Cantoras como Jojo Toddynho sempre reforçam o seu lugar de fala como mulher gorda, negra, que merece respeito. "Preta, pobre e gorda, eu sou uma afronta". 

Foto: Divulgação 

Coletivos, meio artístico, influencers digitais gordas, precisam ter voz, precisam ser respeitadas para que a gordofobia seja encarada como um problema social. Parece pouco, mas se amar, se aceitar e ser respeitado por ser do jeito que é, deveria ser inerente ao ser humano. A sociedade carece de exemplos a serem seguidos. 

"Recebi um conselho que dizia: 'Permita-se'. E a partir daí comecei a ver um mundo de possibilidades. Um mundo onde podia ser, de fato, quem eu queria. Logo em seguida encontrei um grupo de apoio, onde compartilhavam da mesma ideia e aos poucos grande parte dos meus bloqueios foram adormecendo. Pude perceber que praticamente minhas experiências anteriores negativas me fizeram acreditar em uma verdade que não condiz com a realidade", diz a estudante de Publicidade e Propaganda de 32 anos, em depoimento ao Casarão. 

A modelo Manu Mendes, que em suas redes sociais e no seu perfil de Instagram reforça a necessidade de aceitação de si e do amor próprio, dá um conselho para as pessoas que passam por isso todo dia: "Apaixone-se por cada detalhe do seu corpo. Ame-se tanto a ponto de não importar mais nada. Se alguém disser que só te ama se você perder peso você acha que esse é um amor verdadeiro? Não. O amor verdadeiro é incondicional. E assim tem que ser o nosso amor por nós mesmos. Só você conhece sua história. Cada detalhe que fez seu corpo ser exatamente como é. Quando você aprende a se amar, você não precisa da aprovação de mais ninguém. E eu não sei se o mundo muda, mas muda a forma como a gente vê o mundo e isso faz toda a diferença".

Foto: Reprodução
A modelo Plus size Manu Mendes: "Só você conhece sua história" 







4 comentários:

  1. Parabéns pela matéria. Importante falar sobre esse tipo de preconceito. Sucesso!

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  2. Parabéns pela a matéria, gostei muito desse tema porque fala desse preconceito da pessoa ser gorda,Porque a pessoa tem que ser feliz não importa a sua cor seu biotipo.Sucesso!

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  3. Parabéns pela a matéria, gostei muito desse tema porque fala desse preconceito da pessoa ser gorda,Porque a pessoa tem que ser feliz não importa a sua cor seu biotipo.Sucesso!

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