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Segurança das mulheres na UFF

Por Beatriz Lisbôa.

O trajeto entre casa e faculdade deveria ser um percurso tranquilo e comum, porém não é o que acontece para grande parte dos estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói. As mulheres, assim como em qualquer situação, são as maiores vítimas dos perigos nas ruas e, até mesmo, dentro da faculdade.
Segundo pesquisa realizada com estudantes da UFF, aproximadamente 92% das mulheres não se sentem totalmente seguras dentro do ambiente da faculdade, dentro desse percentual, 63% dependem das condições que se encontram para sentirem-se mais seguras. Muitas relatam se sentir desprotegida à noite por conta da diminuição das rondas de seguranças, carência de iluminação e falta de companhia e câmeras no campus. Uma estudante declara que “À noite, a UFF é assustadora.”
Pelo menos 60% das estudantes da universidade já passaram por alguma situação de perigo dentro da UFF ou nos arredores dela. E 80% das estudantes conhecem outra estudante que já passou por uma situação de perigo.

Reprodução Internet

A vida de uma estudante que mora no campus universitário

Por ser um espaço público federal, a universidade tem acesso livre popular. Pessoas que não tem ligação com a faculdade visitam o campus para ter acesso à biblioteca, assistir palestras, visitar o espaço que é considerado muito bonito, participar de eventos, etc. Porém, esse acesso irrestrito causa algumas situações arriscadas aos estudantes, especialmente às mulheres. São muitos os relatos de estudantes que foram perseguidas por homens dentro do campus ou próximo dele, não sabendo informar se eram estudantes ou pessoas de fora do ambiente universitário.
Em entrevista realizada com uma residente da moradia estudantil da UFF, ela descreve a insegurança das mulheres que frequentam a faculdade e, principalmente, a insegurança das mulheres que moram na própria faculdade. Roberta Ruchiga, que convive mais frequentemente com os riscos do campus, relata como o ambiente da faculdade é mal iluminado e tem escassa segurança. “O fato da moradia ser dentro de um local federal, que qualquer um pode entrar, a torna muito perigosa, porque você não sabe qual pessoa está, basicamente, no ‘quintal da sua casa’”.
Apesar da facilidade de morar próximo a faculdade, para quem morava muito longe, da economia com aluguel e alimentação, e haver um controle na portaria da moradia, onde apenas pessoas autorizadas podem entrar, a universidade falha em manter a segurança dessas estudantes. Roberta admite não se sentir segura até mesmo dentro da moradia, por não saber quem são as pessoas de fora que estão lá como visitantes e por já terem acontecido casos de furto entre os moradores, ou seja, existe uma segurança para controlar quem entra, mas não existe uma segurança interna da moradia.
Além disso, durante os períodos de baixa movimentação, como férias, finais de semanas, recessos, o receio é ainda maior. A estudante diz que a faculdade parece esquecer que existem alunos que moram lá e apagam boa parte das luzes, que são poucas normalmente. As rondas dos seguranças permanece a mesma, porém a quantidade de seguranças já é insuficiente mesmo em períodos ativos da faculdade, e por não ter movimento de estudantes, a universidade fica deserta. A sensação de perigo é muito maior, por saber que qualquer pessoa pode estar escondida a espreita e ninguém verá, principalmente à noite com a má iluminação.

Grupos femininos para segurança

Moradoras da moradia estudantil ou não, as estudantes buscam estratégias para se proteger, como não andar sozinha pelo campus ou andar mais rápido quando estão sozinhas, não expor objetos de valor, sair mais cedo de aulas que irão até as 22h, evitar usar roupas chamativas, pegar transportes sempre que possível, pedir companhia de amigos homens, entre outros “cuidados” descritos pelas estudantes.
Existem, também, os grupos de estudantes que buscam companhia feminina para fazer trajetos pela cidade e percursos entre a faculdade e suas casa. As integrantes informam quando há algum perigo iminente, alguma situação pela qual passaram, buscando uma forma de se sentirem mais protegidas e seguras juntas. Um desses grupos é o Vamos Juntas, um grupo fechado de mulheres, “criado com intuito de ser plataforma para interação de mulheres que precisam de companhia para evitar que andem sozinhas saindo/indo para UFF”, como o próprio grupo se descreve.
O Vamos Juntas - UFF possui grupos na rede social Facebook e grupos específicos por áreas de moradia em Niterói no Whatsapp, as mulheres membros do grupo se unem e criam uma rede de proteção, que pode ser acessada por qualquer estudante da UFF do sexo feminino que queira fazer parte da comunidade, através de outras participantes do grupo ou através da página no Facebook. O acesso é restrito e controlado pelas moderadoras dos grupos.
Não esquecendo de grupos destinados a mulheres da moradia estudantil que se reúnem para atravessar o campus em horários de risco, grupos de estudantes que vão para o mesmo ponto de ônibus, grupos de estudantes que pegam o mesmo ônibus, grupos de carona, grupos para dividir táxi e uber, entre outros.

Perigos de Niterói

Os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) expõem, no Dossiê Mulher, o número de 41 denúncias de “importunação ofensiva ao pudor” em 2017, sendo 100% de violência sexual. Nesse delito está incluso assédios, assobios, buzinas e “elogios” ofensivos e de mau gosto.
Cenas de assédio tem se repetido na cidade de Niterói. Não são raros os casos de violência durante a luz do dia também, envolvendo até perseguições assustadoras as vítimas.
Acredita-se que muitos dos casos não são relatados, por medo de minimizarem seus relatos ou por sequer saberem identificar a violência em casos de “importunação ofensiva ao pudor”.
As vítimas não são apenas as mulheres, apesar de serem elas as maiores vítimas e de maior vulnerabilidade. A cidade de Niterói apresenta perigos e violência para todos os gêneros e estudantes.
A culpa nunca é da vítima e, sim, do agressor. Portanto, caso esteja diante de alguma situação de violência contra mulher ou esteja passando por essa situação, procure uma delegacia ou denuncie pelo número 180.

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