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“Senti vontade de morrer e tentei. Não achava que iria sair da depressão"

Relato de jovem que descobriu doença aos 15 anos reitera a importância de cuidar do transtorno, presente na vida de 5,8% dos brasileiros


Por: Júlia Carvalho


              (Foto: arquivo pessoal)



Diferente do que se acreditava na década de 70, a depressão pode vir à tona em qualquer idade e momento como resultado de uma interação complexa entre fatores biológicos, psicológicos e sociais. A doença atinge 11,5 milhões de pessoas só no Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que representa 5,8% dos brasileiros.

Isabela Lima, de 21 anos, descobriu o transtorno aos 15, na época, ainda estudante do ensino médio. "De uma hora pra outra comecei a sentir muita raiva e tristeza. Achei que era fase. Não queria que ninguém soubesse para manter a ideia de ser forte", relata.

A estudante de Medicina Veterinária conta que a personalidade comunicativa deu lugar ao isolamento. Também sentia fortes dores de cabeça, fraqueza e crises de ansiedade. "Comecei a chorar muito e a perder o controle da situação, foi quando decidi contar aos amigos próximos e aos meus pais. Depois, procurei ajuda junto a um profissional da psicologia, mas ainda assim não estava bem", conta. A estudante se afastou dos amigos, passou a ter mudanças bruscas de comportamento e a perder o sono frequentemente. "Me levaram para o psiquiatra, mas o refúgio mesmo foi a bebida, quando eu não bebia era desesperador. Também senti vontade de morrer e tentei. Não foi fraqueza, foi coragem. Não achava que ia sair da depressão".

Como a estudante, estima-se que 300 milhões de pessoas no mundo também sejam afetadas pelo transtorno mental. Segundo a OMS, no entanto, menos da metade das pessoas que enfrentam a doença recebem tratamentos, seja por falta de recursos, ausência de profissionais preparados ou desconhecimento. Segundo a psicóloga Adriana Rodrigues, além dos sintomas, que impedem a realização de atividades rotineiras, a banalização do termo clínico é um dos fatores que também dificulta o acompanhamento. "O desconhecimento da sociedade, que atribui a causa da depressão à questões religiosas ou a uma suposta fraqueza na personalidade, atrapalha o processo. Uma rede de apoio fortalecida é o principal fator de ajuda à essas pessoas", explica.

Apesar de caracterizada por uma tristeza contínua, a doença não é, de acordo com Adriana, o próprio sentimento. “Tristeza é um sentimento que todos nós vivenciamos de maneira natural. Na depressão o sujeito se sente vazio, sem esperança”, pontua. Segundo a psicóloga, outros sintomas presentes são a dificuldade de concentração, insônia e a hipersonia. Entre os tratamentos, estão as terapias comportamentais, a psicoterapia e os medicamentos antidepressivos. “No início me sentia dependente dos remédios, mas é importante entender o que está acontecendo com você. Quem é feliz nem imagina o que é isso”, disse Isabela.


Mais afetadas

A Organização Mundial de Saúde aponta que as mulheres são mais afetadas pela doença de que os homens. O relatório de 2017 mostra que 3,6% da população masculina tem depressão. Já entre a população feminina, o percentual sobe para 5,1%, e eleva para 7,5% quando são analisadas mulheres entre 55 e 74 anos, perfil de maior ocorrência do transtorno. A doença também pode variar de leve, moderada ou grave e ser crônica, aspecto que agrava o estado de saúde daqueles que não buscam tratamento, além de poder levar ao suicídio – segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.

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