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A costura de uma sociedade


Por Karen Rodrigues

Paetês, rendas, linhas de crochê e tecidos estampados. A exposição “A Vida Renasce, Sempre”, de Sônia Gomes, 70 anos, expressou a paixão da artista pela costura e pela tecelagem, fascínio este descendente de sua avó. Após os 40 anos, Sônia se descobriu artista ao se deparar com sua manifestação artística se aflorando por meio da recriação e junção de memórias em peças monumentais.

Pela primeira vez expondo no Museu de Arte Contemporânea, MAC, em Niterói, a artista explorou o uso de materiais não mais utilizados e os modelou em obras de arte que expressam questões sociais, raciais e sua posição artística. Por ser mulher negra, ela se colocou e representou outras iguais naquele Salão Principal do museu.

Algumas peças chamam a atenção do visitante por suas cores, modelagens e objetos inseridos. É diferente o modo como Gomes expressa suas inquietudes e perturbações sociais, tanto é que suas obras tem referências amplas e de livre interpretação, mas sempre atreladas à sociedade e o que tanto aflige o indivíduo. A peça Depurar, 1999, lembra a questão da liberdade, tendo uma luva branca rendada preenchida de objetos de costura, como botões, dentro de uma gaiola aberta com um pombo branco em cima. Em frente a essa obra e no centro do salão, como uma bela peça principal, Maria Dos Anjos (2017-2018), o vestido de noiva, que foi doado à artista, me remeteu como uma continuação do Depurar, pois lembra ao casamento. O fato de ter uma luva dentro de uma gaiola que combina com o vestido de noiva pendurado no teto e que possui cordas costuradas com peso no chão, associo ao enclausuramento e ao fardo que o matrimônio traz à mulher. Um símbolo do machismo ainda presente na sociedade atual.

Além disso, ao lado do vestido de noiva remendado, as obras penduradas do teto com torções e junções de tecidos carregam pequenas bolsinhas brancas que são recheadas de tecidos, botões, e, até mesmo, cabeças e corpos de bonequinhas de plástico. Tendo uma ligação, particularmente, com o vestido e com a luva na gaiola, já que estaria associado a outro passo de um casamento, que seria a gravidez. Vejo como uma expressão da artista em abordar a questão da obrigatoriedade social da mulher de casar e procriar para, enfim, ser feliz e cumprir sua função.

Ao continuar a exposição depois desse ponto de vista, acredito que remeteu à libertação feminina e a questão de se encontrar como indivíduo social e profissional. Os tecidos na parede se tornam mais remendados, maiores e sem formas modeladas por arame, como as primeiras. Os quadros mostram uma descoberta como artista, eles são mais claros, as cores ornam e as linhas estão ligadas entre si. Dentro de uma caixa de vidro, livros infantis coloridos e personalizados com tecidos rendados brancos e azuis chamam a atenção, ainda mais das crianças.

Sônia Gomes nos fez lembrar da vida, principalmente a feminina. Como já diz o título da exposição, ela nos mostra o renascimento da vida e a luta de se encontrar numa sociedade que nos prende e nos aprisiona. Sendo ela mesma uma descobridora dessa vida, que aos 42 anos se encontrou como artista contemporânea. As suas cores, os tecidos, as modelagens podem ser associadas às diferenças sociais, como cada um é único e diferente, nem por isso deixa de ser belo, ainda mais quando todos se juntam, se costuram e se remendam entre si. A experiência de vida da artista pode ser vista plenamente em seu trabalho e cada obra mostra uma lição por si própria.

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