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Eu canto liberdade



Por Júlia Sestero

Ela andava por entre as imagens, lia, se abaixava, olhava de perto, nada entendia. Rodou, olhou em volta de tudo, em volta de si, foi seguindo. Olhou a primeira figura, tecidos torcidos e retorcidos, um círculo. Exatamente o 360º que ela havia dado recentemente. Continuou com afinco, uma gaiola, uma mão dentro de uma gaiola, um pássaro dentro da gaiola. Disso ela entendia: quem vive aprisionado sente as correntes de longe. Como o pássaro ela também queria voar, também queria ser livre, afinal, todos não queriam se desprender de amarras? A mão trancafiada ela interpretou como a que sufoca o grito, tenta silenciar o choro, ou pode ser também alguém querendo fugir de um amor que aprisiona, os caminhos eram muitos. Aquela conjuntura a prendeu por muito tempo.

Sonia Gomes nomeou a exposição de "A vida renasce sempre", é muito provável que agora, com 46 anos, ela tenha enxergado na sua arte em pano retorcido, a sua forma de fugir de dentro de si, mas essa visão é particular. Quando se está preso se busca liberdade, o renascer e, o tempo todo,  a gente se sufoca, se aprisiona. Toda prisão busca libertação, mesmo que ela nunca chegue. Assim como as crianças que mais tarde entraram no museu, correram, procuraram com seus pequenos olhos quem sabe alguma história fantasiosa por trás daquele conjunto de retalhos, o que move o carcerário é fantasiar a sua alforria.

Alguns pais levavam nas mãos seus filhos, até que um menino se desprendeu e correu em direção ao telão. "Um bueiro", ele disse. O filme passava diversos ângulos de um bueiro. Porque alguém iria querer retratar um bueiro? A exposição do andar de baixo não era a mesma do andar de cima mas, ainda assim, dava para relacionar de tantas formas. Os objetos contorcidos, as texturas nos quadros, para uma pessoa leiga, era a união de objetos sem sentidos. Quem tem um pouco de imaginação cria uma história até com um cano de água.

Ainda não satisfeita com o entrelaçar da narrativa que criou se imaginando como objeto criado, ela foi mais a fundo e viu uma mesa que a chamava "Monte sua frase", a convidando para construir uma história. Ela já tinha todo um desenrolar de acontecimentos, mas olhou as palavras e escreveu "Eu canto liberdade" e dali, ela saiu porta afora, avistou o mar, se esqueceu do que aconteceu a pouco tempo, e foi puxada pela sua rotina.

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