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Coletivo TransParente

Arte que imita a vida
Coletivo teatral de Niterói é responsável por trazer para os palcos a vivência de seus alunos
Brenda França, Natasha Mastrangelo, Suelen Fernandes e Vinicius Gonçalves




Dentro do Centro de Referência LGBT Leste, em Niterói, na Visconde de Morais, 119, estava aglomerado um grupo de jovens mexendo em peças de roupas que não eram deles. Preocupados com o bazar previsto para a semana seguinte, o coletivo TransParente tenta arrecadar dinheiro para comemorar seus dois anos de união, no dia 7 de dezembro, com uma edição do que eles batizaram de SexTrans, um evento que ocorre a cada dois meses no Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal Fluminense (UFF) e que reúne exposições, esquetes, poesia e debate com o público. O grupo, que teve seu início idealizado pelo cineasta e atual coordenador do projeto Marcos Campello, de 47 anos, tinha como principal objetivo, em novembro de 2016, um trabalho voltado para pessoas transexuais. Hoje, procurando uma transformação social através da arte e da cultura, o TransParente agrega todas as letras da sigla LGBT e acolhe os mais variados segmentos para contornar a opressão dentro e fora dos palcos.

Sem qualquer incentivo público ou privado, o coletivo funciona através de doações e da participação ativa de seus integrantes. Apesar das limitações, Campello, ou “Campai”, como é carinhosamente chamado pelos jovens, diz que as parcerias ajudam muito para que o coletivo se mantenha atuante. “Temos aula de expressão corporal, yoga e teatro com o professor Paulo Merisio da UniRio, já que hoje somos um curso de extensão da faculdade. Também temos parceria com o Centro de Cidadania LGBT Leste, que atende os alunos com profissionais de psicologia, direito e assistência social.”, conta o coordenador.

O grupo já chegou a levar seu trabalho para o ensino médio de diversas escolas municipais de São Gonçalo e Niterói, além de já ter se apresentado na Câmara Municipal de Niterói, no Teatro Popular Oscar Niemeyer e na própria Universidade Federal Fluminense. Abrindo sempre discussões sobre identidade de gênero, orientação sexual, racismo e machismo, o coletivo TransParente tem suas esquetes escritas pelos próprios jovens do coletivo, todos eles oriundos da periferia. “A gente está criando a nossa representatividade porque a gente não se encontra nesses espaços, como pessoas trans, pessoas negras ou LGBTs. E quando estamos nesses espaços, somos artigos de comicidade de forma escrachada, pegando o pior do estereótipo e muitas vezes feito por pessoas que não somos nós.”, explica Rita Dias, 22, que faz bacharelado em Artes Cênicas e é uma das mais antigas do grupo.

Com o bazar idealizado por eles, a meta é arrecadar fundos e diminuir os custos arcados pelo Campai, já que muitos deles não possuem ao menos o dinheiro da passagem para chegar em Niterói. O coordenador ainda conseguiu apoio de amigos, que doam uma quantia mensal para que os jovens consigam se manter no projeto e comprar o necessário para suas produções. Esse clima de acolhimento do coletivo TransParente é o suficiente para transformar a vida dos jovens do grupo. Wallace Berto, pedagogo e coordenador pedagógico do grupo, conta que em 2017 o núcleo foi responsável por acolher Thaís Silva, uma menina trans que foi expulsa de casa aos 13 anos e morava na rua até conhecer uma produtora do coletivo.

“Nosso diretor e nossa produtora realizaram diversas ações para tentar buscar os direitos não acessados por Thaís. Fomos a abrigos, buscamos tirar os documentos, procuramos algum lugar para ela ficar. Depois de muitas indas e vindas, nossa aluna está formada em curso técnico, está num abrigo, ganhou autorização para vir às aulas do coletivo e acabamos de realizar seu aniversário surpresa de 15 anos.”, lembra o pedagogo. “Eu fui acolhida de braços abertos. Eles são o meu refúgio.”, desabafa a menina, que está trabalhando em duas histórias para colaborar com as esquetes do grupo.

Rhayssa Guedes, 21, formada em teatro, explica como que a participação no coletivo vai muito além dos palcos. “Você não necessariamente precisa vir para cá para fazer teatro, tem gente que vem porque se sente bem, porque é um meio de muito amor que acolhe. Aqui é um lugar pra você colocar suas ideias. Eu acho que a cumplicidade vai além da atuação e acho que muita gente se descobre ou se desperta aqui nessa vontade.”, destaca a jovem. Esse descobrimento foi muito sensível para Vinícius Figueiredo, de 18 anos. “Eu já me entendia como artista, mas eu não me entendia como pessoa. O coletivo me ajudou muito a evoluir, a saber amar o outro e a me amar.”, desabafa o menino.

Para que esse trabalho tenha continuidade, o coletivo TransParente está recolhendo doações na sua locação na Visconde de Morais, 119, toda terça-feira de 15h a 18h. Nas quintas, o grupo também se reúne no DCE da UFF. Todo tipo de material é bem-vindo para ajudar nas produções de suas esquetes, como maquiagem, tecidos, equipamentos ou qualquer quantia para arcar com as passagens dos estudantes.

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