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Ressurreição

Nascido e criado no Piauí, colecionei muitas histórias. Boas memórias tenho da infância feliz, amada e sem lágrimas. Ajudei a carregar cestas no sítio de meu pai. Ordenhei vacas. Peguei ovos na granja. Alimentei porcos. Me joguei na lama quando a mamãe não estava por perto. Vivi o verdadeiro esteriótipo do menino da fazenda no Nordeste.
O problema é quando a mocidade chega.
Cobranças aumentam. O contato com o outro lado aumenta. Descubro que existe um vasto mundo fora dali. E agora? Serei pra sempre o menino da fazenda que morre com seu nome enterrado junto aos bois? Não mesmo. E foi assim que fui parar no Rio de Janeiro.
Mas nada foi simples.

Dinheiro faltou. Peito doeu. Acreditava ter certeza de minha decisão, mas a saudade me causou uma eterna dúvida. E conversando sobre essa saudade com meu amigo de anos que esteve comigo desde os meus tempos de boiada, decidimos ir a exposição "Piauí: entre anjos e Palmeiras" perto da nossa casa. Para nossa surpresa, quando chegamos no Museu Janete Costa, o medo veio junto. O medo de entrar e se deparar com o antigo eu. Com o menino da fazenda que se foi. Mas, como aprendi com a minha avó: "Se tá com medo, vai com medo mesmo, meu filho"– ela dizia.

E assim fui.
Entre muitos anjos e palmeiras, ali me vi. Percebi que, na verdade, o menino da fazenda nunca morreu.
Virou anjo.

Mas não daqueles que tocam harpas, mas sim sanfona. Não aqueles que colhem frutos das videiras, mas sim dos cajueiros. Não os que se repousam sob pinheiros, mas sim sob palmeiras. Sou um anjo piauense. Minha cruz no pescoço não me permite
mentir. Não sou anjo branco como dizem por aí. Sou negro. Queimado pelo sol. Sou nordestino. Meu chinelo é de couro. Meu chapéu também. Sobrevoo pelas carnaúbas e babaçus. Protejo os que acordam cedo para capinar, colher, rezar, ordenhar, vender. Protejo os que tem vida. Protejo meu Piauí. E agora, Niterói também.

Me vi num museu segurando uma sanfona ao lado de cajueiros e palmeiras. A liberdade do ser – ali havia. Pela primeira vez, me enxerguei sem espelhos.

Hoje, sobrevoo naquela exposição. De uma sala para outra, cada uma com sua emoção.
Ressuscitei.

Meu lado piauense viu luz, agora não quero mais me esconder.
Essa é minha identidade.
Como cantava Torquato Neto:
"Eu sou como sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível".

A partir de agora assim viverei. Porque parte de mim é saudade e a outra...?

Um vazio em eterna construção.

Por Cecile Mendonça


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