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Entre as prisões e a liberdade



Por Ghabriella Costermani Machado

Cheguei um pouco mais cedo que meus demais colegas da turma de jornalismo da UFF, sendo uma ensolarada tarde de quarta-feira (17), o horário de chegada estava previsto para às 14h, durante o tempo da nossa disciplina de Oficina de Reportagem do 3º período do curso. Passados alguns minutos, logo estávamos todos reunidos no Museu Janete Costa de Arte Popular. Durante o curto intervalo em que passei sozinha no salão, pude conhecer um pouco mais sobre quem seria Janete Costa. “Responsável pela criação de diversas coleções, apresentou a cultura popular aos mais importante colecionadores da arte brasileira, articulando às técnicas-utilitárias juntamente ao talento do cotidiano brasileiro”. E sendo exatamente sobre esse tema que nos é apresentada a exposição do organizador Jorge Mendes, “Piauí, entre anjos e palmeiras”. Buscando representar e causar a reflexão sobre a arte popular brasileira e o Estado do Piauí, a apresentação trouxe diversas obras com elementos característicos do costumeiro brasileiro e piauiense.
Primeiramente, somos guiados até a primeira sala, onde pudemos apreciar esculturas de diferentes anjos, cada um com características próprias dos autores e também a autenticidade brasileira. Estes diversos artistas, entre 25 e 60 anos, fariam parte do que consideram hoje a e geração da arte santeira, na qual a religião seria um tema central, encontrando no estado do Piauí seu ápice.
Fotos: Autoria própria
 Os belos querubins tupiniquins foram esculpidos a partir da madeira do símbolo do estado nordestino: as palmeiras carnaúbas, babaçus e buritis. Bases de sua economia e também dos totens produzidos pelo escultor Guilherme, reproduzindo o cotidiano do campo e utilizando dos troncos como um registro pré-histórico, assim como às antigas pinturas rupestres.
Foto: Luíz Ferreira
  Tudo era bastante belo, podia-se  perceber nos semblantes de meus colegas a admiração pela arte, mas ainda nos faltava alguma coisa: sobre o que de fato, centralmente, a exposição falava? É neste momento que somos levados até as nuvens. É assim que a sala homenageando os três artistas principais da geração: Mestres Dezinho, Expedito e Cornélio, é chamada, a sala das nuvens. Juntando todos os elementos apresentados até então, finalmente, concluímos que a liberdade era a discussão simbólica que a exposição trazia.
Fotos: Luíz Ferreira
    E com apenas alguns passos, diretamente das névoas tão alvas, caímos do paraíso para a escuridão, para os temidos anos de chumbo. Passamos a relembrar sobre o medo ao qual o país esteve imerso durante a ditadura civil-militar. Mas apesar de termos pousado em meio aos tempos sombrios, havia, ainda, um anjo. Torto. Mas um anjo. Homenageando o poeta brasileiro, Torquato Neto, a exposição ressalta a necessidade de, 50 anos depois, ainda ser preciso estar falando sobre esse período. E demonstrando como até o momento, nas ruas, se possui  elementos que perpetuam a luta contra a censura e a tortura. Viajando em uma linha temporal que funde o presente e passado.
Foto: Autoria própria
    Por fim, chegamos ao espaço interativo e multissensorial da exposição. Entre reflexões sobre o que nos aprisiona e nos liberta, tivemos a chance de refletir sobre nossos medos e também onde encontramos apoio e acalento para enfrentá-los e finalmente alcançar a sensação de liberdade; nos livrarmos das amarras, das tonturas, das prisões, do silêncio. E quando enfim conseguirmos, conquistaremos nossas asas e voaremos.

Entre Anjos e Palmeiras
Data: de 3 de abril a 4 de agosto de 2019, de terça a domingo
Horário: das 10h às 18h
Entrada franca
Classificação indicativa: Livre
Museu Janete Costa de Arte Popular
Rua Presidente Domiciano, 178, Ingá, Niterói

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