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Todos pela educação: atos do 15M inundam ruas do país



Por Juliana Sá Tsunami é uma série de ondas causada pelo deslocamento de um grande volume de água. O Brasil presenciou no dia 15 de maio um outro tipo de fenômeno: em vez de água, as ruas foram inundadas por gente. Um milhão e meio em todo o país, segundo a União Nacional dos Estudantes. E se o tsunami pode ter sua origem em um atrito entre blocos de terra, no caso do tsunami do 15 de maio, o choque que motivou a inundação veio de uma medida governamental. Anunciada no final do mês de abril, ela restringe o direcionamento de verbas para a educação pública, aquela que “é uma conquista da sociedade”, nas palavras de Renata Mancini. A professora do Departamento de Letras, da Universidade Federal Fluminense era uma das gotas de gente a compor o tsunami em sua manifestação no Rio de Janeiro. A população foi às ruas em resposta à decisão do Ministério da Educação de bloquear 30% dos recursos destinados às instituições de ensino federais. “Ao falarem que é preciso tirar dinheiro da universidade para investir em educação básica, eles esquecem que é na universidade que são formados todos os profissionais. É o eixo central da organização e da construção forte de um país”, argumenta a professora, citando em sua fala uma das principais justificativas do governo para o que eles definem como “contingenciamento”, mas que nas ruas ganha o nome de “corte”. Na explicação do ministro da pasta, Abraham Weintraub, sobre o Plano Nacional de Educação, há um gasto de mais de “200 bilhões por ano no mínimo” com a meta de ampliação de vagas no ensino superior, quando, o foco que ele “gostaria de trazer aqui é que qualquer esforço novo fosse feito na educação básica, na base da casa”. Educação Básica segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação engloba a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. A argumentação do ministro, no entanto, é passível de questionamento. Um exemplo é o fato do chamado “contingenciamento” afetar o Instituto Federal do Rio de Janeiro, que contempla ensino técnico e superior. Logo, também alunos de Ensino Médio sentirão os impactos da medida, como Helena, de 17 anos: "O IFRJ é uma escola de excelência, lá dentro a gente tem pesquisas e projetos de extensão que muitas vezes ganham prêmios e conseguem visibilidade até fora do país. Mas, por outro lado, a infraestrutura, principalmente do meu campus, é precarizada, a gente não tem todos os bebedouros funcionando, falta ar-condicionado, falta jaleco, falta livro. Se esses cortes forem aprovados, a coisa vai piorar ainda mais! É triste, a gente pode ter a cura do câncer lá dentro daquelas mentes, mas sem o investimento para botar em ação, nada acontece". A decisão do governo sensibilizou até mesmo os alunos de instituições particulares. "Eu acredito que é importante a presença de alunos e professores da rede privada aqui no ato também, não é hora de segregar, é hora de unirmos forças”, diz Ana Carolina, 19 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Estácio de Sá. “A educação é um direito básico de todos e, com o corte, isso deixaria de ser um fato, se as universidades públicas acabarem precisando fechar as portas. Além disso, esse corte pode chegar ao FIES, reduzindo ainda mais os meios de se ingressar em uma universidade. É preciso ter empatia e unir as vozes para que sejam ouvidas", completa a universitária. As instituições federais públicas de ensino superior, no entanto, ainda possuem os cenários mais problemáticos no contexto do bloqueio de verbas. “A UFF conta com um hospital público, um hospital veterinário, atendimento terapêutico gratuito, atendimento odontológico, áreas culturais e muitos outros serviços que dependem de verba para funcionar e para atenderem à população”. Letícia, aluna de Psicologia na UFF, ressalta o sucateamento da faculdade e a sua preocupação com o funcionamento de órgãos que beneficiam toda a comunidade, “Cortar da educação é cortar esses serviços e cortar a oportunidade de melhoria deles. É você desestimular o progresso em pesquisas de todas as áreas que não só ajudam a população, como dão visibilidade internacional ao Brasil”. Segundo Ana Beatriz, estudante de Comunicação Social na UFRJ, a situação de sua faculdade é ainda pior: “Com os cortes, a UFRJ anunciou que só teria verbas para mais 3 semanas. Hoje não sabemos até quando a faculdade vai funcionar, mas estamos na luta”. Além dos alunos, esse “contingenciamento” afeta, também, a sociedade. Adriana, 40 anos, professora da rede municipal do Rio, afirma que o bloqueio foi a “gota d’água” para ela: “Não dá mais para a gente viver e engolir isso. Essa foi a minha primeira manifestação com minhas filhas. Que vocês, a próxima geração, continuem lutando e não desistam, vai ser difícil, mas as coisas mudam aos poucos. Vocês não são idiotas e são muito úteis”. Bloquear o “eixo qualificador de uma sociedade”, como define Renata Mancini, é “atacar a sociedade como um todo. A aposta desse governo é destruir essa qualificação, mas em nome do quê?”, pergunta. Uma nova tsunami é prevista para inundar as ruas do país no dia 30 de maio.

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