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O Prédio da Caixa ainda resiste

Por Luiza Maia.


Ex-moradores do prédio da Caixa, no Centro de Niterói, continuam sem teto definitivo
         Já são duas semanas marcadas por perdas, incertezas e luta por visibilidade. Tudo começou numa sexta-feira, dia 07 de junho, quando moradores do centro de Niterói foram expulsos de seus próprios lares, privados de estarem debaixo de seus habituais tetos onde dormir. Habitavam um prédio condenado, abandonado, mas que ainda guardava os sonhos e esperanças de pessoas também esquecidas. Deixaram suas moradas, seus pertences, não de forma passiva, antes, lutaram para serem ouvidos e reconhecidos em uma realidade de invisibilização.

Moradores despejados protestam em frente à prefeitura da cidade. Foto: Paula Máiran.
       Na segunda-feira, dia 17, exatamente dez dias após o acontecimento, os desabrigados do Edifício Nossa Senhora da Conceição, conhecido como o Prédio da Caixa, fizeram um barulho incessante. Cada ex-morador recebeu buzinas e apitos para mostrarem que apesar de terem seu prédio tapado por concreto, não conseguiram tapar suas existências, levantando um muro que apagasse suas condições. Algumas famílias ainda reivindicam o recebimento do aluguel social oferecido pela Prefeitura de Niterói, no valor de 782,69 reais. Segundo a síndica do prédio, Lorena Gaia, cerca de 15 famílias ainda estão sem conseguir receber o auxílio.

Lorena, atual síndica do prédio, conversa com moradores. Foto: Paula Máiran.
       Lorena, que morava no prédio há três anos, foi eleita pelos moradores após a ex-síndica ser acusada de atitudes administrativas improbas. Desde então, se colocou como a principal porta-voz das famílias despejadas, unindo-as em torno do desejo de terem suas moradias de volta. Na audiência pública do dia 4 de junho, que reuniu moradores, representantes do CREA e da OAB RJ, dois dias antes do despejo ocorrer, a síndica e estudante da UFF confrontava a necessidade da desocupação e o descaso da prefeitura. “Não são paredes de concreto, são histórias”, reivindicou com firmeza.
       Histórias de pessoas à margem, mesmo vivendo no coração da cidade. Em paredes que transpareciam descaso e um histórico problemático. No edifício que abrigava 394 apartamentos e 13 lojas, residiam proprietários, inquilinos e ocupantes, alguns por mais de 20 anos. Longe de uma existência tranquila, o prédio sofria com problemas de infiltração e o acúmulo de lixo. Problemas que, graças a uma má administração, mau uso do dinheiro arrecadado pelo prédio, apenas aumentaram a cena precária. Desde o mês de março os moradores estavam sem o fornecimento de luz e de água, usando galões de água mineral para o abastecimento de suas casas no dia-a-dia. Uma situação que, segundo Lorena, seria reversível com as mudanças sendo realizadas sem o despejo dos moradores. Mas a proposta não foi atendida.
       O primeiro prazo determinado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) exigia que até o dia 24 de abril o prédio fosse desocupado. Posteriormente, a data se estendeu para o dia 25 de maio, porém, até a madrugada do dia 07, os moradores se mantiveram em resistência do prédio. Por volta das 5h da manhã, enquanto o dia ainda escuro começava, a ameaça do despejo e a incerteza do “para onde ir?” bateram à porta.

Vidas invadidas

       Teresa Cristina de Souza praticamente não dormiu naquela noite, assim como outras famílias que permaneceram em vigília, esperando o que poderia acontecer. A aposentada de quase 60 anos é proprietária de um dos apartamentos e há 7 anos vivia ali. Os últimos meses haviam sido marcados por tensão. Sem luz, geladeira, sem água, tentava se manter no apartamento onde havia estabelecido também seu local de trabalho. A máquina de costura, sua fonte de renda, permaneceu no prédio concretado, assim como todos seus móveis e eletrodomésticos. Lembra saudosamente do que deixou para trás, como as frutas que havia comprado nos dias anteriores ao despejo e que viraram lixo. Hoje, depende da comida que lhe é oferecida.

Em ato, moradores tomam café da manhã em frente à prefeitura de Niterói. Foto: Paula Máiran.
       Terminando de comer um pão com manteiga e segurando um copo vazio de café, ela participa do café da manhã em frente à prefeitura de Niterói. São 11 horas da manhã do dia 17, e ela olha para o lixo em suas mãos. “Estamos sendo tratados que nem lixo”, ela afirma, “transportados de um lugar para outro”. Desde o dia que foram retirados, os moradores precisaram se deslocar diversas vezes. Da APAE para a quadra da unidade municipal Rosalda Paim, de lá para a sede do PSOL, onde puderam se abrigar por curto espaço de tempo, de volta para a colégio, e hoje permanecem em duas casas alugadas perto dos outros endereços. Lá as famílias, com cerca de 12 crianças, 7 adolescentes e vários adultos, dividem os cômodos apertados e entulhados com as únicas coisas que conseguiram levar consigo. Ainda utilizam a cozinha e abastecem água no colégio Rosalida Paim. Ali na casa, não possuem chuveiros, e uma pequena cozinha serve para quebrar um galho.


Vista das casas com sacolas e objetos resgatados do prédio.
Moradores dividem quartos em casa alugada.
       Teresa reúne as poucas coisas que ainda possui junto a doações que recebe. Lamenta não ter como se arrumar melhor. Usar uma maquiagem, fazer o cabelo. Se sente irreconhecível desde quando deixou sua casa. Naquele dia, com a entrada dos policiais no prédio, viu a porta de seu lar ser arrombada, assim como a de outras famílias. Na defesa de seus bens, moradores foram atacados, assim como a própria síndica foi agredida. Teresa diz que recebeu um tapa, mas não se rendeu à passividade. Estava em jogo ficar ou perder toda sua história ali construída. Atacou de volta. Frente ao alto nível de emoção, passou mal e foi carregada por um dos policiais para receber atendimento.
       Saiu do prédio apenas com a roupa do corpo, deixando quase todos os seus pertences para trás. Ganhou de lembrança uma foto que saiu em uma notícia veiculada pelo jornal O Globo no mesmo dia, que a captou amparada pelo policial, sua mão na cabeça, os olhos em desespero. Não queria tamanha exposição, mas deixou a foto passar. Afirma que nela parece outra pessoa, marcada pelo cansaço e pela luta.

Marisa participa da Greve Geral em Niterói (14/06).
       “Você me viu na TV? Eu saí na Globo chorando”. Em outra reportagem, veiculada pelo RJ TV no dia do despejo, Marisa Fernandes enxuga as lágrimas e afirma não saber o que fazer. Ela conta que geralmente não cai facilmente no sono, mas naquela noite, foi mais difícil ainda. Saiu também apenas com uma bolsa e a roupa do corpo. Preocupa-se com seu remédio para o controle da pressão e da diabetes que permaneceram. Assim como seu gato que ficou para trás, junto a outros animais que ficaram na prisão de concreto até cerca de uma semana após o despejo. 

Foto: Prédio da Caixa Vive.
       No dia 14 de junho, os ex-moradores do prédio participaram com seus cartazes pintados em vermelho sangue da greve geral contra a Reforma da Previdência. Seguiram a procissão junto a alunos e professores da Universidade Federal Fluminense (UFF) desde a avenida Marquês do Paraná até a avenida Amaral Peixoto, em meio a gritos contra e a favor da manifestação, passando em frente às suas antigas moradas.
       “Ah, que saudade…”, a dona de casa com mais de 60 anos exclama ao passar em frente ao prédio. Aponta o décimo terceiro andar, de onde descia e subia de escada todos os dias. Ali passava seu tempo, ocupando-o com a arrumação da casa, lavando uma louça ali, passando um pano no chão aqui. Lia a bíblia, e fora de casa, andava pelas ruas do centro, ia à igreja, catava latinhas à noite. Mas agora a rotina se perdeu.
       Agora, ocupa-se na arrumação de cada lugar onde é abrigada. Ajuda a fazer comida, varrer, a limpar o banheiro que é dividido para todos. Foi quem acordou a todos às 5h da manhã para estarem de pé no ato. Debaixo do sol quente, tomando pouca água, ela permanece firme junto aos companheiros, e mesmo com a voz muito rouca, arrisca falar ao microfone em frente ao prédio, onde os moradores se reúnem com suas faixas. Todos param para escutá-los.

  

     Vitória Salem Carvalho é uma das primeiras a protestar em frente ao prédio, discursando com um microfone. “Somos trabalhadores. Eu sou uma mãe trabalhadora”. A jovem de 21 anos tem a filha de 4 anos junto a si, a qual ela carregou durante todo o ato. Para seu sustento e de sua família, ela costumava vender bolos, sanduíches, cafezinho e chocolate quente pelo centro de Niterói. O marido vende goiabas na rua, mas ultimamente tem tido dificuldades nas vendas.
       Longe do microfone, das câmeras que a filmam e das mãos que aplaudem seu discurso, ela revela um grande desejo: “Só quero voltar pra casa e pegar meu histórico escolar”.Vitória não terminou o Ensino Médio, mas sonha em um dia chegar à faculdade, contrariando aqueles que não imaginam uma jovem negra e pobre portando um diploma. Diz que gostaria de se formar em obstetrícia ou advocacia. A forma como realizou seu discurso reivindicatório, aponta o indício de que ela seria uma advogada ferrenha. 

Vitória e sua filha de 4 anos participam ativamente da manifestação.
       “Não quero passar por essa humilhação nunca mais”, ela diz quanto ao seu desfecho no prédio em que morou por 2 anos. Antes, morava em Campos, e se mudou para Niterói a fim de buscar novas formas de conseguir uma renda. Hoje, sem seu material de trabalho, os potes para os alimentos, as garrafas térmicas, seu carrinho, avental e luvas, espera ajuda para voltar a ganhar seu dinheiro, antes do acúmulo de mais dívidas.

Sonhar ainda é possível

       No dia seguinte à greve geral, após a passeata e as reivindicações, os moradores já haviam sido mudados da quadra do Rosalda Paim para a sede do PSOL. A cada mudança, uma grande questão é levantada: “até quando?”. Marisa tem esperança que a busca por um lugar fixo possa acabar em breve. Esperando ainda receber o valor do aluguel social, diz que já encontrou uma nova casa para alugar em São Gonçalo.
       Durante uma reunião entre moradores, membros do PSOL e do MTST, na decisão de seus próximos passos juntos, Marisa pegou o microfone para falar já em clima de despedida. Em seu discurso, disse que sentiria falta de todos, daquela família que se formou em torno de um propósito comum: a busca por dignidade. Expressa sua esperança de que assim como encontrou um lugar para si, outros também reconstruam suas vidas. Mas afirma com certeza que jamais abandonará Lorena, que além de síndica, se tornou amiga, uma parente, a expressão de suas vozes. “Mesmo se eu for morar nos Estados Unidos”, ela promete.
       Vitória, após o final de semana atribulado de mudanças de um local para outro, conseguiu o valor do aluguel social e também encontrou um novo lugar. Mas não quer deixar a luta, e promete continuar ao lado de seus colegas até o final. Morando agora em Itaúna, aceitou o desafio em estar longe e manter sua vida em Niterói. Sua filha continua matriculada em um colégio no centro da cidade, permanecendo apenas meio período, e em breve ela espera voltar para suas atividades nas ruas da cidade.
       Teresinha também acredita que já nos próximos dias sairá do casarão apertado e insalubre para estar em um novo cantinho. Esteve todo esse tempo acompanhando as famílias do prédio, convivendo mesmo em meio a divergências, dependendo da mesma cozinha para se alimentar e água para se banhar. Também espera que todos possam sair dessa situação. Deseja também poder ajudar Vitória, que se casou no civil no dia 12 de junho, dia dos namorados, a conseguir realizar uma festa em comemoração. Pensa em como poderia conseguir um vestido de noiva para a jovem, que apesar da reviravolta em sua vida, sonha com esse momento marcante na vida de muitos homens e mulheres.

Prédio da Caixa Vive

   

       A página do facebook, “Prédio da Caixa Vive”, desde o dia 27 de maio tem registrado a trajetória na luta por visibilidade dos ex-moradores. Foi iniciada para reivindicar o direito à moradia dos que estavam sendo ameaçados de despejo, e hoje, pede ajuda para divulgação de suas lutas e também doações. Em uma postagem no dia 9 de maio, foi publicado o contato para doações urgentes para ajudar as famílias, enquanto elas ainda estavam abrigadas na quadra da APAE. Hoje, eles ainda precisam de remédios para pessoas com doenças crônicas, alimentos, roupas e calçados principalmente para as crianças, roupas íntimas, utensílios de higiene e beleza, entre outros.

   

       Seguem exigindo outras soluções mais humanizadas pela prefeitura de Niterói. Segundo o desabafo de um dos moradores, eles desejam palavras escritas, já que apenas os diálogos não estão contribuindo para que eles melhorem suas situações. Enquanto isso, não têm vergonha em mostrar nas fotos suas atuais condições de moradia. Afinal, desde aquele dia tiveram suas vidas invadidas e escancaradas pelo despejo.
       Juntos permanecem nas casas alugadas no centro da cidade por Welington e sua irmã Mara, ex-moradores que levaram consigo outros desabrigados e todas as coisas que lhe restaram. Dividem os pequenos espaços, cada um com seu colchonete, sacolas e objetos de valor. Debaixo desses tetos que testemunham o descaso, luta e sobrevivência são compartilhadas.

Moradora varre cômodo da casa onde estão abrigados.
A cozinha é compartilhada entre todos.

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