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A fama na era das redes socias: Como lidar com as relações efêmeras do meio digital?

Por Juliana Sá

Foto: Juliana Sá

Uma história que foi contada mais de uma vez pela mídia. Um estilista que vendia seus croquis nas calçadas de Niterói e de São Gonçalo por R$ 1,00. Ele já foi “descoberto” cinco vezes, mas, até hoje, permanece nas ruas. Os “15 minutos de fama”, conseguidos em anos diferentes, parecem não ter sido suficientes para realizar o sonho do seu José Carlos Ferreira. Já o estudante Pedro Manuel possui mais de um milhão de seguidores no Twitter. Através do humor, conseguiu visibilidade, alcançou o que tem ânsia por manter. A internet representa a esperança das pessoas em alcançar atenção, por diferentes motivos.  É possível, mas por que tão poucos conseguem uma fama duradoura? 
Talvez porque o próprio conceito de fama se ressignifique na atualidade. Para Bruno Campanella, professor do departamento de Estudos de Mídia da UFF, “a fama era algo desejado e alcançado por poucos. Mas hoje, ela se torna quase uma pré-condição para a autorrealização identitária de todos nós”. Se poucos estavam visíveis para muitos, agora muitos estão visíveis para muitos, enquanto para os marginalizados sociais a falta do olhar continua a criar sobre eles uma penumbra. 
Pedro Manuel tem 19 anos e é estudante de Comunicação Social da UFRJ. Mais de um milhão de pessoas sabem o que ele faz, pensa e sonha a partir dos comentários que compartilha no Twitter. A visibilidade conquistada nas redes sociais foi tamanha, tantas imagens sobre si hoje inundam o seu cotidiano, que chegar até o verdadeiro Pedro, aquele por trás do @itspedrito mostrou-se um desafio que esta reportagem não conseguiu vencer. Procurado para falar acerca da sua ascensão virtual, ele aconselhou que fossem consultadas outras entrevistas concedidas por ele anteriormente. Em uma delas, no canal “Sereio”, do YoutubePedro Manuel atesta: “Fazem cinco anos que eu entrei para o Twitter. Eu comecei postando coisas sobre meu cotidiano igual a todo mundo, mas um dia um tweet meu viralizou e teve 1000 rts, o que para mim, na época, era muita coisa. Eu gostei do sabor da ‘fama’, aí comecei a fazer mais tweets voltados para o humor e, com isso, consegui crescer muito. Hoje, eu tenho um milhão de seguidores. Às vezes, acontece de algumas pessoas me pararem na rua quando eu estou indo para a faculdade e perguntarem se eu sou o ‘Pedrão do Twitter’ porque elas me conhecem de algum lugar. Eu fico todo sem graça, mas falo que sou ele sim”. 
Mais do que 15 minutos de fama, Pedro passou a ter necessidade de alimentar uma certa imagem, que não obrigatoriamente espelha quem é. Em análise deste fenômeno, Campanella atenta para o que toma como uma mudança crucial da visibilidade. “Em vez de pensarmos nos 15 minutos de fama, que todos teriam direito no futuro, conforme proposto por Andy Warhol, talvez faça mais sentido, hoje em dia, pensarmos numa recente variação desta frase, segundo a qual ‘no futuro, todos serão famosos para 15 pessoas’”, defende. 
Seja composto por 15 ou um milhão, o público que está conectado tem pressa para falar da sua própria vida e ver a vida do outro com o intuito de comparar à sua. A tirania do eu parece predominar. Parece, pois nem todos utilizam as redes apenas com este fim. Para Kamyla Costa e Soraya Sanches ela foi instrumento para pensar no outro. Era 2012, quando Kamyla fez o movimento de se abaixar e olhar para José Carlos Ferreira, 40 anos, sentado no chão, desenhando. O estilista contou sua história, ela postou no Facebook e a partir daí, estar nas redes e estar na mídia viraram rotina. Todos queriam ouvir seu relato acerca de sua origem, das batalhas travadas desde que sofreu um acidente e teve que parar de trabalhar, a forma como viu nos desenhos da infância uma maneira de conseguir o sustento. Mas, poucos podiam ajudar Ferreira de fato. 
Tanto Kamyla - “Ele tem muito talento e eu queria ajudar de alguma forma, por isso acabei divulgando a história dele no Facebook” - quanto Soraya, a segunda pessoa a divulgar essa trajetória, relatam que tinham a intenção de contribuir. De fato, mudanças vieram: após o post de Kamyla, Ferreira, que muitos julgariam “invisível” apesar de não o ser, foi parar no Programa da Fátima Bernardes. Já o post de Soraya muito provavelmente contribuiu para o convite de desenhar a coleção de inverno do Fashion Week de 2014, junto do estilista Walério Araújo. 
Simultaneamente, no entanto, Ferreira experimentou decepções. Soraya destaca que as ilusões causaram danos a ele: “Eram muitas promessas feitas ao Carlos, mas, no final, ele apenas criou expectativas e não ganhou nada. Ele teve outra crise depressiva por causa da ilusão.” 
O sucesso passageiro de Ferreira, depois de um tempo, fez com que ele voltasse às antigas calçadas de chão quente para vender seus desenhos a R$ 1,00. Era estaca zero de novo. Em abril deste ano, Mariah Ferretti estava andava pelo centro de Niterói quando deparou-se com os croquis de alta qualidade.  Mais uma vez a história de Ferreira seria exposta nas redes, agora através do Twitter. A estudante de enfermagem da UFF fez um tweet, para divulgar o trabalho do artista de rua, que acabou viralizando novamente e alcançou mais de 70 mil curtidas. Enxurrada de oportunidades apareceu na vida dele. Ferreira não parecia muito esperançoso, quando entrevistado à época: “Tem dias que eu penso: ‘vou desistir não quero mais não’, mas eu não posso desistir do meu sonho. Eu queria mostrar para o mundo o meu trabalho, a minha arte. Até quando a minha história vai ficar na parede?” 
A parede da qual o estilista refere-se é a de seu quarto, onde todos seus desenhos mais bonitos ficam. Existe outra, entretanto, a da exposição na internet. Essa, diferentemente da do quarto de Ferreira, possui um espaço infinito, porém poucos conseguem conquistar uma posição de destaque permanentemente. Diante do excesso do visível, a parede está repleta do "eu" e mesmo quando a intenção é conseguir ali pregar um retrato do outro, a visibilidade não é garantia de sonho realizado.

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