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Resurge o DACO: Pequeno movimento estudantil com grandes atitudes






Diante de transformações, pensamentos e questionamentos surgem estudantes lutando por seus ideais e em busca de um país mais justo. São os movimentos estudantis brasileiros. Esses movimentos começam a surgir século XIX e voltam a ganhar cada vez mais força.

Por Catiane Pereira
Sentados em uma calçada de cimento, um grupo de estudantes debate, argumenta, opina e organiza os próximos passos. Grandes movimentos estudantis, como a Passeata dos Cem Mil, começaram assim. Mas o cenário e os tempos são outros. Reunidos em uma das salas do Instituto de Artes e Comunicação Social - IACS, na Universidade Federal Fluminense, os estudantes reconstroem o Diretório Acadêmico de Comunicação Social (DACO), num movimento seguido por estudantes por todo o país.
Diretórios acadêmicos são organizações que representam todos os estudantes de uma instituição de ensino superior, e os centros acadêmicos representam os estudantes de um curso de nível superior. No caso do DACO,  os estudantes de Comunicação Social preferem que seja denominado diretório por ser mais de um curso ali representado. 
“O DACO está sem gestão na UFF desde 2016, pois em 2015 foi uma gestão provisória na época das ocupações, era uma coisa como autogestão. Nós já não tínhamos mais essa representação e isso acarreta em não termos voz dentro do departamento do curso, não termos voz dentro da faculdade, não termos nossas necessidades atendidas, pois esse é o papel do DACO, estar ali ouvindo os alunos, levando isso para a coordenação. Então no final do ano passado, antes de entrar de férias, eu e um amigo conversamos e resolvemos que seria necessário retomarmos as assembleias”, explica Thaís Gesteira, estudante do 5° período do curso de Jornalismo e uma das organizadoras da nova DACO. Diante das últimas ações do ministério da educação, incluindo o corte de 30% do orçamento das universidades públicas, alunos de todo o país passaram a se mobilizar em manifestações Brasil afora. Ao se envolverem com questões sociais e em consonância com movimentos estudantis, esses jovens percebem a dimensão que sua participação pode exercer, percebem que são além de sujeitos com particularidades, são cidadãos que podem mudar o rumo do país.

“O DACO foi fundamental na minha formação, eu entrei na universidade de um jeito e sai de outro. Vim de escola pública, com um ensino precarizado, eu não tive uma educação que me permitisse abrir os olhos para a realidade, pelo contrário, eu só tive essa possibilidade na universidade pública. Acho que é por isso, inclusive, que a universidade pública é alvo de tantos ataques, porque ela permite que as pessoas desabrochem, permite que as pessoas inaugurem um outro olhar perante a sociedade. O DACO me forjou enquanto ser humano que atua minimamente na sociedade.”, lembra André Borba, ex-atuante da DACO. A partir das reuniões e debates, os alunos começam a organizar suas demandas e criar um diálogo com as outras esferas da instituição, como explica Thaís. “No início, quando pensei em reconstruir o diretório, o que me motivou foi a falta de optativas, porque quero me formar e vejo que não temos muitas optativas para cumprir a carga horária. Entretanto, comecei a perceber que existem várias outras demandas muito importantes, muitas outras coisas que os alunos querem, por exemplo, a questão de eventos acadêmicos, não conseguirmos organizar e colocar ônibus de graça para irmos a congressos, não termos professores negros, e conversando percebi a necessidade de ter professores negros e outras pautas como ouvidoria contra opressões, e muito mais.”, declarou Thaís Gesteira.

Além disso, surgem muitas outras pautas que vão além das questões do próprio curso ou da própria universidade. Eu percebo que existem muitas demandas que não são assuntos acadêmicos em si, mas que são discussões fundamentais no meio acadêmico, como a opressão às maiorias minorizadas, que chamamos de minorias sociais, no caso, os negros, as mulheres, LGBTQI+. É importante ter uma organização que represente os estudantes quando tudo isso for discutido. E assim,  formarmos uma universidade que seja um lugar melhor pra todos, não só para formação profissional, mas para a vivência no dia a dia”, afirma Isabela Evaristo, estudante do 5° período do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal Fluminense

Os membros dos diretórios se sucedem, mas as conquistas do movimento estudantil permanecem. Jéssica Pietrani, ex-integrante do DACO, lembra que em 2011 a mobilização dos estudantes, que chegaram a ocupar a reitoria, foi fundamental para a abertura dos bandejões da Praia Vermelha e de Rio das Ostras.

“Mas a principal questão que na verdade mobilizou essa ocupação foi a realização de um convênio que permitia a construção de uma rua por dentro da universidade e uma outra que iria desalojar vários moradores de prédios ao lado do campus do Gragoatá, e nós conseguimos anular essa decisão”, conta.

São essas conquistas que mostram a força dos movimentos estudantis e o papel fundamental que desempenharam em vários momentos históricos brasileiros. O movimento estudantil já conquistou direitos importantes para a educação brasileira, como voto facultativo aos 16 anos e a destinação de 50% das vagas em universidades e institutos federais para estudantes de escolas públicas. Desses movimentos também surgem muitos líderes, representantes da população, como a Vereadora Verônica Lima, de Niterói.

 “O movimento estudantil é um dos mais importantes na consolidação da democracia e nas juntas populares do Brasil. Todas as vezes que nós tivemos lutas importantes, como a campanha “O Petróleo é nosso”, a luta pela redemocratização do Brasil, as “Diretas Já”, o “Fora Collor”, a “Passeata dos Cem Mil” na década de 60, em todos esses momentos nós tivemos a presença da juventude e nós tivemos a presença dessas instituições muito importantes como a UNE, a UBES. Eu tive a oportunidade de ser da executiva da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. Luta pela escola pública de qualidade, pelo passe livre, por direitos,  sempre teve presente e esse movimento estudantil continua muito relevante, sobretudo, no atual momento”, declarou a vereadora, que é a primeira mulher negra a assumir o cargo na cidade. As reivindicações acompanham as demandas que são desenvolvidas pelas manifestações populares, leituras da conjuntura política e aberturas desse sistema. Os Diretórios Acadêmicos são, dentro da organização do movimento estudantil, as unidades mínimas da estrutura deste, mas não menos importante. Ele é o micro dentro do macro, no que diz respeito ao movimento estudantil. Esses organismos são um instrumento real de interferência na estrutura social.

“Se nós desejamos que o Brasil seja uma nação soberana, potente, a gente precisa investir em educação e em tecnologia. Por isso o movimento estudantil é mais atual do que nunca, porque a gente precisa defender não só a pauta da educação, mas sobretudo a pauta da democracia. A luta dos estudantes sempre esteve muito próxima e é fundamental que a gente consiga garantir a democracia no Brasil no momento atual. Então viva o movimento estudantil, hoje e sempre!” diz Verônica Lima.

No início, apenas a elite

Durante todo o século XIX, o ensino superior brasileiro esteve restrito a uma parcela extremamente limitada da população, com raras instituições no país. Os primeiros passos para a criação de um movimento estudantil foram dados por estudantes que vinham das universidades do exterior e, ao chegarem ao Brasil, envolviam-se nos debates acerca dos acontecimentos sociais. Movidos pelos ideais iluministas, os “filhos dos senhores de engenho” foram os precursores na representação de estudantes. O movimento estudantil iniciou-se nas elites, mas não parou por ali. Logo no início do século XX, com o crescimento da industrialização e das cidades, os estudantes  cresceram em número e importância. O rápido aumento do número de escolas, nas primeiras décadas do século, foi acompanhado da organização coletiva dos jovens, que desde o início de sua atuação estiveram envolvidos com as principais questões do país.  Muitos desses estudantes deram suas vidas por acreditarem num país mais justo, como o secundarista Édson Luís, o presidente da UNE Honestino Guimarães,  Fernando Santa Cruz, além de muitos outros, cada um deles com suas particulares. Édson Luís, de origem humilde, morava no Pará e mudou-se para o Rio de Janeiro a fim de fazer o então segundo grau. Tiveram sua vidas interrompidas, mas deixaram sementes. 

Em todo país, multiplicam-se diretórios centrais, muitos com nomes homenageando estudantes mortos pela ditadura militar, representando todos os estudantes de uma instituição. A composição do Movimento estudantil compreende todas as camadas de estudantes: secundaristas e universitários, escolas técnicas, particulares e públicas, pequenas sementes que, quando plantadas e cultivadas, germinam e crescem.

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