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Travas no Audiovisual: representação e inserção de corpos transexuais no cinema

Por Lucas Bulhões

O ano é 1993. Traídos Pelo Desejo, dirigido por Neil Jordan, se torna o primeiro filme a tratar de transexualidade a ganhar um Oscar. No longa, premiado na categoria de Melhor Roteiro Original, Fergus (Stephen Rea) se apaixona pela envolvente Dil (Jaye Davidson), com quem vive um intenso romance até a descoberta da transexualidade de sua amada.  Alguns anos depois, mais precisamente em 1998, outro filme a tratar do tema consegue triunfar na grande disputa da estatueta dourada: Meninos Não Choram. Nele, Hilary Swank levou o prêmio de Melhor Atriz, ao dar vida a um jovem transexual de uma pequena comunidade do interior americano.
Nos anos seguintes, obras como Clube de Compras Dallas (2014) e A Garota Dinamarquesa (2016) também foram premiadas, porém, ainda que retratem questões ligadas a transexualidade, todos compartilham o mesmo fato: são protagonizados por atores cisgêneros (pessoa cuja identidade de gênero é correspondente ao sexo que lhe foi atribuída no nascimento), ou seja, que não se identificam como transexuais. Realidade quebrada apenas em 2018, após o chileno Uma Mulher Fantástica, estrelado pela atriz trans Daniela Vega, ser consagrado com o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro - na nonagésima edição da premiação
Mas ainda que diversos filmes na temática tenham sido lançados, recebido certo reconhecimento em premiações menores - como o independente Tangerine (2015), e repercutido de forma positiva em seu nicho, a condição identitária ainda não é um tema abraçado pelos grandes estúdios.  Segundo dados do relatório anual da Aliança Contra Difamação de Gays e Lésbicas (GLAAD), referente às produções cinematográficas lançadas em 2018, dentre os 110 filmes lançados pelos grandes estúdios de Hollywood naquele ano, nenhum incluiu um personagem trans. As outras letras da sigla (LGBTQ+) não se saíram muito melhor, entre os longas, apenas onze apresentaram personagens gays, número equivalente ao de lésbicas, enquanto apenas três continham personagem bissexuais.

(Cartaz do filme Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio)

No Brasil a situação não é muito mais favorável. Ainda que no imaginário popular a presença de travestis e transexuais não seja novidade, tendo alguns poucos  nomes como o de Roberta Close - atriz e primeira mulher transexual a posar nua na revista Playboy brasileira, da atriz Rogéria e até mesmo dos concursos de “transformistas” nos programas de auditório, a imagem desses segue sendo construída de maneira marginalizada. Não é por acaso que o país, segundo dados da ONG Transgender Europe (TGEU), ocupa a liderança no ranking mundial de assassinatos de pessoas trans.
No cinema, tem havido um acréscimo no movimento que busca mais representatividade ao grupo. Os exemplos mais notáveis são o documentário Divinas Divas (2016), que busca retratar o grupo homônimo, ícone da primeira geração de artistas travestis no Brasil dos anos 1960, e o mais recente, Bixa Travesty (2018), que usa o cotidiano da cantora Linn da Quebrada para desconstruir a imagem negativa atribuída a elas. O filme foi um dos grandes destaques do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, levando o prêmio de Melhor Filme do júri popular e do Melhor Trilha Sonora.
E em meios a algumas iniciativas que  buscam combater a falta de representatividade, foi criado o projeto Travas no Audiovisual, com o intuito de inserir mulheres trans, travestis e não-binárias no contexto da linguagem audiovisual.


Travas no audiovisual e no meio acadêmico


“O projeto surgiu em um momento no qual eu me sentia muito sozinha na universidade. E eu estava passando por um processo de exclusão no meio acadêmico, num meio onde as pessoas são brancas, onde todos são cis e eu a única trans. Me sinto excluída, há uma exclusão velada institucional que fere meu corpo a partir do momento que me reconheço como um corpo trans, negro e periférico”, conta Ivy Park, 19, idealizadora do projeto Travas no Audiovisual e estudante de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal Fluminense.
Vinda de Recife, Ivy é a primeira trans negra a ingressar no tradicional curso, um dos mais concorridos da universidade. Com a ajuda de dois amigos e alunos de Produção Cultural da faculdade - Guilherme e Hariel, após uma série de reflexões sobre suas vivências e as possibilidades abertas pela experiência acadêmica, idealizou o projeto, que consiste em um curso de cinema para outras mulheres trans e travestis.

     Ivy Park, idealizadora do projeto Travas no Audiovisual


A ideia é proporcionar uma capacitação básica da linguagem audiovisual, através de fundamentos de Roteiro, Direção Geral, Produção, Direção de Arte, Direção de Fotografia, Som e Edição, a fim de que as alunas do curso possam associar o conteúdo com suas ideias na realização de dois curtas metragens ao término do curso.
A presença de alunos transexuais nas universidades ainda é uma questão não resolvida. Segundo uma pesquisa da Folha, realizada na Associação Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior no Brasil (Andifes), entre os 424 mil estudantes com matrículas ativas nos institutos federais, apenas 0,1% se declaram homens trans, o mesmo percentual para as mulheres transexuais.
Números que levaram algumas universidades a adotarem a reserva de vagas para alunos dessa categoria, como a Universidade do Estado da Bahia (Uneb), pioneira na prática ao anunciar, em julho de 2018, a criação de 5% de vagas (do seu total) ao grupo. Atualmente outras 12 universidades públicas, entre as 63 brasileiras, contam com vagas do tipo.
"Eu quero muito conseguir dar uma assistência a essas meninas. Muitas delas não conseguem empregos e atualmente são profissionais do sexo, e não é sempre que podem abrir mão de um trabalho para estudar. Não é sempre que um curso vai garantir um suporte financeiro para elas. Esse é um trabalho a longo prazo, que nos ajuda a nos capacitarmos, nos dando uma renda no futuro e nos ajudando a permanecer vivas", diz Ivy sobre a importância da existência do projeto, em um país em que, como levantado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), 90% da população trans recorre à prostituição durante sua vida, devido à dificuldade de inserção no mercado de trabalho.
A prioridade do Travas será para as alunas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, que além das aulas, receberão um auxílio transporte e almoço nos dias de estudo.




Previsto para acontecer em todos os sábados de agosto a novembro, o curso já conta com o apoio de outros alunos e professores da universidade. O Travas no Audiovisual está com uma campanha de financiamento coletivo, com a qual esperam arrecadar R$12.000,00 para viabilizar e atender suas demandas mais rapidamente. Os interessados em apoiar o projeto podem contribuir através da plataforma Kickante, até o dia 6 de agosto, pelo link: https://www.kickante.com.br/campanhas/projeto-travas-no-audiovisual.
Outras informações podem ser obtidas através de suas redes sociais, @travasnoaudiovisual no Instagram e no Facebook.

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