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Cultura sofre com sintomas do Coronavírus

Profissionais do setor criativo amargam demissões, cancelamento de projetos e quedas de receita


Por Matheus Ferreira e Eduardo Frois


    Lucas LT membro do LadoA realizando um show, principal fonte de renda do grupo


A pandemia está afetando toda a economia mundial. Mesmo em países rigorosos no combate ao Covid-19 há complicações para as empresas, como queda de demanda e falta de insumos, além de outras inúmeras adversidades. O Brasil inicia dezembro acumulando pouco mais de 6,3 milhões de contaminados pelo Coronavírus, desses são 173165 mortes confirmadas pelo Ministério da Saúde. 


Um quadro pandêmico tão grave levou governos e autoridades sanitárias a criarem uma série de medidas restritivas, e a estabelecer planos de retomada das atividades divididos em etapa, baseados no risco de contaminação. A última fase de reabertura traz de volta eventos com acesso do grande público, que são para muitos profissionais e empresas sua única fonte de renda. É a chamada economia criativa, segmento que reúne as atividades de cultura, mídias e tecnologia e segundo pesquisa produzida pelo Governo do Estado de São Paulo, com a FGV e o Sebrae, emprega nacionalmente 4,9 milhões de pessoas. O setor abriga cerca de 300 mil empresas, respondendo, assim, a 2,64% do PIB. Todo essa comunidade está passando por momentos muito delicados com a pandemia.


Lucas Moura, conhecido como LT, é um dos muitos artistas brasileiros que enfrenta o impacto do vírus sobre o setor de cultura. Ele é compositor de Rap/Hip Hop na cidade de São Gonçalo no Rio de Janeiro. Criador de batidas musicais (beats) e  de canções, o profissional faz seus lançamentos pela sua banda LadoA e em alguns casos comercializa suas produções para terceiros, buscando aumentar os rendimentos. Em abril de 2020,tinha acabado de lançar o primeiro grande produto autoral com o seu grupo, o “De volta ao lugar”, uma mixtape, formato popular no seu estilo musical que une diversas faixas interligadas.


“Assim que lançamos nosso primeiro disco, explodiu a pandemia, eu fiquei sem acreditar. Pensava que agora que tínhamos um produto em mãos iríamos trabalhar muito, o que não faltaria é show", contou LT. O desabafo expõe a realidade de muitos profissionais do setor criativo. Na pesquisa conduzida em São Paulo, entre 546 corporações 42,1% relataram cancelamento de projetos.


O setor cultural foi fortemente impactado pela sua dependência de público. A restrição de aglomerações impediu a viabilidade de muitos eventos. As restrições produzem efeitos em cadeia: o cancelamento de festas, por exemplo, atinge profissionais, como músicos e produtores, além da rede hoteleira, transporte e varejo, que também são beneficiados quando acontece algum espetáculo. 


Um exemplo de grande evento que deverá ser prejudicado é o Carnaval. Na capital do Rio de Janeiro, em 2020, a Riotur, empresa de turismo da cidade, contabilizou a presença de aproximadamente 2,1 milhões de turistas, um crescimento de 31,2% comparado a 2019. Do total, 23% dos visitantes eram estrangeiros. A instituição ainda afirmou que os hotéis na região central carioca tiveram 98% de ocupação e que foi registrado um aumento de 5% no consumo geral. A economia local movimentou ao todo cerca de 4 bilhões no período. Em 2021, o cenário deverá ser bem diferente, embora ainda não haja estimativas precisas para o próximo ano.


Tradicionalmente realizados em fevereiro, os desfiles das escolas de samba foram momentaneamente realocados para setembro em 2021. O governo acredita que cumprirá a agenda apenas com a vacinação contra a covid-19, que ainda é cercada de incertezas. Para as festas de rua ainda não há definições. Mesmo sendo realizadas de maneira independente, elas precisam de autorização das autoridades locais.  Existem hoje algumas vacinas em fase final de teste, mas nada garante uma breve imunização. Todas essas adversidades podem representar déficits bilionários para os cofres públicos, para as empresas fluminenses e também para os artistas que vivem do calendário de eventos da cidade.


 O decreto nº 10.464, sancionado em agosto, destinou 3 bilhões para serem distribuídos aos profissionais da cultura. Metade do valor será repassada pelos municípios e a outra metade será paga pelos Estados. O auxílio mensal, no valor de R$ 600,00, poderia beneficiar até dois profissionais numa mesma residência. Até o fim da segunda semana de outubro o Ministério do Turismo havia concedido apoio financeiro a 2.584 municípios espalhados pelo Brasil. Porém, na opinião do Rapper LT, existe um certo abandono, pois nem todos os artistas são contemplados, e os valores concedidos não conseguem cobrir os compromissos.


“Acho que acontece abandono. Vejo que está difícil pra geral que é independente. Eu não peguei o auxílio pela lei Aldir Blanc, peguei por conta de um emprego. Meu auxílio tá rolando, mas é o últimos mês que eu pego. Muitos amigos não conseguiram nada” , LT.


Streamings são como respiradores para músicos


O integrante do LadoA lembrou que os artistas que tinham presença digital conseguiram fôlego no início da crise sanitária, já que a internet se tornou uma alternativa atraente para quem buscava continuar seus projetos. As lives foram as opções para continuar os shows e o Youtube foi o local encontrado para as transmissões ao vivo. O site já tinha a ferramenta, mas foi com o isolamento social que os vídeos em tempo real se tornaram mais populares. O streaming, que pertence ao Google, permite a monetização, o que significa que o número de visualizações resulta em arrecadação.


No dia 8 de março, a sertaneja Marília Mendonça se tornou uma das precursoras e alcançou a maior audiência brasileira do Youtube do novo formato. A cantora teve 54 milhões de acessos em sua live, além disso realizou outras duas que a colocaria na 5ª e 13ª colocações no ranking de views. Todos as gravações envolviam patrocinadores e ações beneficentes, com doações para os mais vulneráveis. Outros nomes como Bruno e Marrone, Luan Santana, Raça Negra e Thiaguinho também tiveram transmissões com milhões de usuários conectados.


Em novembro, a prefeitura do Rio de Janeiro liberou o retorno das festas no município determinando a limitação em 30% a capacidade de público, medição de temperatura, uso de máscara e disponibilização de álcool em gel. Essa autorização aliviou as contas de alguns profissionais, mas ainda há muita incerteza e discussões sobre essa flexibilização. Parte do público segue insegura de voltar a frequentar festas, dessa forma, as produtoras continuam com as contas negativas. 


Recentemente o presidente Jair Bolsonaro afirmou em coletiva que os auxílios não serão estendidos para 2021 alegando incapacidade financeira da União, o ministro da economia, Paulo Guedes, também já se posicionou publicamente contra a continuidade do benefício seguindo o mesmo discurso. A suspensão pode afetar grande parcela da população que está sem outras formas de renda. O governo não apresentou até o momento nenhum plano para combater as adversidades relacionadas a essa decisão.


Analisando todo contexto, o quadro futuro é de grande indefinição para toda economia e os profissionais do setor cultural desassistidos terão que agir por conta própria para manter suas contas em dia. Com a instabilidade do retorno gradual dos eventos, os músicos tentam outras formas para continuarem trabalhando, mas para isso terão grandes desafios. Enquanto não ocorrer uma vacinação em massa, aparentemente a volta à normalidade será inviável.

 

 


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