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O silencioso sintoma da pandemia: a saúde mental em pauta

O isolamento social, o desemprego, o próprio vírus e o medo têm causado o aumento ou a intensificação de transtornos emocionais


Por João Paulo Ferreira, Maria Clara Mangelli e Maria Luísa Pimenta


O isolamento social pode causar solidão, medo e tristeza por estar longe de convívio social     
(Foto: CEMEP)

Em março de 2020 a Organização Mundial da Saúde declarou o surto de coronavírus como uma pandemia. Segundo a agência Reuters, até 7 de dezembro 1.536.242 pessoas morreram e 66.749.165 foram infectadas pela doença. Muito se fala sobre os sintomas físicos provocados pelo vírus: febre, dificuldade de respirar, perda do olfato e do paladar, coriza, entre outros. Há, no entanto, uma série de consequências para a saúde mental da população. O aparecimento ou intensificação de questões psicológicas preocupa tanto quanto a Covid-19, pois não afeta somente quem se contaminou, mas todos  os que estão vivendo a pandemia – ou seja, o mundo inteiro.

A psicóloga Giulia Latge afirma que a saúde mental é afetada de muitas maneiras e que a proximidade da morte, o medo e o isolamento social são responsáveis por toda a angústia que as pessoas sentem. “Não estamos acostumados a não ter controle dos acontecimentos e a pandemia colocou isso ainda mais em evidência, destacando o fato, tão difícil de lidar, de que a morte é uma parte da vida”, afirma Latge. Ela ainda diz que o afastamento do convívio social causa uma espécie de luto da vida e da liberdade que existia. “O luto da vida de antes, uma vida sem pandemia, sem medos, sem tantas mortes diárias por causa de um vírus. Assim, faz parte de um processo de luto certo desânimo, negação e dificuldade de desinvestir da vida que costumávamos ter. É doloroso viver tantas perdas e conviver com esse ‘novo normal’ tão distante do que desejamos”.

Quem se contaminou com o coronavírus também passa por problemas psicológicos, além dos sintomas diretamente relacionados ao vírus. Muitas vezes, o emocional consegue ser pior que a própria doença, como diz Rita de Cássia Ferreira, de 53 anos: “Senti muito medo pelos meus filhos, pela minha família, medo de contaminá-los. É horrível, são 14 dias isolada no quarto, passando mil coisas na cabeça, sem saber o que pode acontecer, se no dia seguinte estaria melhor ou pior, no CTI entubada, ou internada. É muito ruim, o sentimento é muito mais difícil do que a própria doença, o medo do que pode acontecer é pior do que o medo da doença”.

Além da privação do convívio social e do medo do que pode acontecer, houve um grande impacto no âmbito financeiro, uma vez que diversas pessoas perderam empregos e empresários tiveram que lidar com a falência de empresas e perda de empreendimentos. O desemprego e diminuição na renda são fatores cruciais para o surgimento de sintomas depressivos e ansiosos ou afloram ainda mais no caso de quem já sofre. Uma pesquisa realizada pela ConVid Comportamentos, uma parceria entre a Fiocruz, a Unicamp e a UFMG, coordenada pela professora de epidemiologia Marilisa Barros, mostra que 62,2% dos entrevistados tiveram sua renda diminuída ou ficaram sem renda. Além disso, 40,4% disseram ter sentimentos de tristeza ou depressão e 52,6% afirmaram sentir nervosismo e ansiedade.

O Brasil tem o maior índice de pessoas que sofrem com algum transtorno mental na América Latina - estima-se que são 12 milhões de brasileiros. Durante a pandemia, o quadro ainda se agravou. Muitos passaram a ter algum tipo de transtorno psicológico e muitos viram seus problemas já existentes se agravarem.

Matheus Bárcia, de 20 anos, afirma que já fazia terapia, mas que com a pandemia questões que antes eram ignoradas foram ganhando espaço e a ajuda psicológica tem sido fundamental. “Eu já fazia acompanhamento psicológico antes da pandemia, mas devido à necessidade de ficar em casa, muitos problemas que antes eram ignorados foram se tornando diários, como discussões em casa, desavenças familiares, ansiedade, compulsão alimentar, ciclo de procrastinação. A terapia me ajudou muito a montar rotinas pessoais, organizar meus pensamentos e aprender a sair de situações estressantes sem necessariamente sair de casa”.

Uma das maiores dificuldades durante o isolamento social é se manter distante de pessoas que costumávamos encontrar diariamente. Larissa, de 21 anos, afirma que o mais difícil é ficar longe da família e amigos. “O auxílio psicológico foi muito importante pra mim nesse período, porque eu já tinha uma ansiedade bem acentuada e quando a pandemia começou, ela piorou bastante devido a todas essas preocupações da Covid-19. Acho que o mais difícil tem sido ficar longe da minha família e dos meus amigos, sem poder abraçá-los e sem poder ir à faculdade”.

Outra questão que tem feito aumentar a necessidade de terapia é o ensino remoto. A sobrecarga de tarefas e a impossibilidade de conviver com colegas de classe têm feito muitos alunos se sentirem mais cansados e pressionados. “Mesmo estando cercada de pessoas que eu amo, às vezes me sinto sozinha pela falta de contato com meus amigos e minha família. Percebo que minha ansiedade está cada vez pior também, devido ao excesso de tarefas para fazer no estágio e na faculdade. Pensar no futuro, às vezes, me dá uma certa angústia, nesse cenário tão caótico que estamos vivendo”, afirma Cecile Mendonça, de 20 anos. Outro entrevistado que preferiu não se identificar, de 22 anos, também se diz pressionado e reitera a importância que a terapia tem nesse momento. “Com toda a pressão e estresse nesse período, a ajuda psicológica seria um escape, como um paralelo para descansar a mente e a dar mais atenção a si mesmo”.

Em pesquisa realizada por O Casarão, com 40 pessoas de 18 a 89 anos, 85% dos participantes revelaram o aumento da necessidade de ajuda psicológica durante a pandemia. Porém, 50% não buscou essa ajuda. Além disso, dos que buscaram ajuda, 27,8% não conseguiram.

O motivo mais alegado pela dificuldade em conseguir apoio psicológico foi a falta de condições financeiras, resposta dada por 57,1%, seguida por falta de tempo, com 21,4%, e pela falta de conhecimento de profissionais da área, 7,1%. Uma pessoa afirmou que as três opções acima a impediam de conseguir fazer terapia.

Giulia Latge dá dicas de como as pessoas com dificuldades de conseguir tratamento podem reagir. “Cada situação é muito singular. Há casos que precisam de um cuidado especializado e não tem como encarar de outra forma. Nessas situações, ainda contamos com uma rede de saúde mental pública de qualidade. Existem formas de conseguir atendimento psicológico online durante essa pandemia de forma bastante acessível. Mesmo nesses casos, ou nos casos de pessoas que não precisam desse encaminhamento para atendimento especializado, existem direções para um cuidado com a saúde mental. Um deles é o de respeitar o que se sente, tudo bem ter dias mais para baixo e outros melhores”, afirma Latge.

Com a pandemia, o atendimento online tem se tornado uma maneira de se cuidar mesmo em período de isolamento. Um participante da pesquisa que preferiu não se identificar, de 20 anos, disse que encontrou na Rainbow, iniciativa de profissionais da psicologia dedicada à comunidade LGBTQI+, um apoio fundamental. Com os atendimentos sendo realizados a distância, pessoas de qualquer cidade do país podem ser atendidas, mesmo que não tenham um psicólogo perto da sua casa cadastrado. “Com o início da pandemia tive que voltar a morar com meus pais e isso me fez dar uma pirada, por ter que “retroceder” tudo o que conquistei. Em junho consegui um psicólogo pela Rainbow e desde então tá sendo muito importante, me ajudando em mil questões que vieram à tona nesse período”, contou nossa fonte. Além da Rainbow, outras iniciativas fornecem atendimento online. A Rede de Apoio Psicológico e o Instituto de Psicologia da USP são alguns exemplos.

Giulia Latge afirma também que, além de ajuda especializada, é importante contar com uma rede de apoio composta por família e amigos. “Estar perto daqueles que você gosta é uma dica para passar por momentos de dificuldade. E, quando falo em estar perto lembro que existem diversas formas de isso ocorrer, como os novos recursos para encontros virtuais gerados pela internet”. Mas reforça que buscar ajuda profissional é essencial em alguns casos. Quando uma questão te afeta emocionalmente, sua rotina deve ser cuidada e nunca deixada de lado. “Não há como passar ileso por tudo isso. Mas, é claro, é importante se atentar em como essas questões estão mobilizando e afetando a sua rotina. Se o mal estar é tão grande que lhe impede de fazer tarefas básicas, como comer, dormir, se cuidar, é importante buscar ajuda”.

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