Navigation Menu

Fast Fashion: o consumo rápido ficou fora de moda?

Nas redes sociais e plataformas digitais, o debate sobre a lógica do modelos de negócios e suas consequência vem ganhando escala

Por Júlia Barbosa


O Fast Fashion é criticado pelos impactos ambientais e sociais produzidos (Créditos:Vasco Gargalo)


Seja no Fashion Twitter ou no TEDx, as discussões sobre o "Fast Fashion" são sempre tendência. Pelas estatísticas do Google Trends, a busca pela expressão dobrou no último ano, acumulando um crescimento de mais de 250% desde 2016.  Esse interesse pode ser atribuído à disseminação do assunto nas redes sociais e outras plataformas de compartilhamento de conteúdos. No Tik Tok, são mais de 192 milhões de visualizações de conteúdos sobre o assunto. Entre eles há variações que vão dos famosos fashion hauls - vídeos de compras em grandes quantidades - até denúncias à “comunidade fashion''. 

A partir da popularização do tópico nas redes digitais, muitas pessoas passaram a entrar em contato e se engajar nos movimentos contra o Fast Fashion, que ganharam corpo, sobretudo, no último ano. A hashtag #stopfastfashion tem 21 milhões de visualizações no Tik Tok e quase 90 mil publicações no Instagram, além de perfis que criticam esse segmento e defendem a corrente oposta, o Slow Fashion - baseado no consumo consciente, ecológico e independente. A produtora de conteúdo Rafaella Parma defende a influência dos criadores independentes na difusão do debate de moda nas redes sociais:

“Há uns anos atrás as revistas de moda tinham esse conhecimento nas mãos e ele chegava através desses veículos. Hoje, com as plataformas digitais, há uma democratização dessas informações. Os produtores de conteúdo independentes trouxeram um olhar diferente dos meios de comunicação capitalistas que escrevem o que convém para eles. Quando você ouve de alguém que não fala aquilo por algum tipo de conveniência, você entende de uma maneira muito mais fácil e pessoal, tornando o debate mais fluido”, comenta a designer.


Apesar dessa expansão, o debate sobre a "moda rápida" não chega a todo mundo. Numa enquete realizada pelo Casarão com homens e mulheres de 17 a 28 anos, através das redes sociais, apenas metade dos respondentes (51,4%) afirmou conhecer o significado da expressão. Outros 20,3% disseram que sabiam mais ou menos do que se tratava, enquanto 28,4% informaram que não tinha informação a respeito. Apesar disso, 85,1% compravam artigos de moda neste tipo de loja.


Enquete e infografia: Júlia Barbosa

O modelo de negócios Fast Fashion é baseado na produção em larga escala e baixo custo e incorpora a premissa da velocidade em todos as etapas do processo comercial: produção, distribuição, venda e descarte. Zara, Forever 21, H&M e as brasileiras Renner e C&A são exemplos de redes do gênero, comandadas por grandes conglomerados empresariais.


Com a chegada das redes digitais, vimos a emergência do segmento “ultra-fast fashion”, liderado por empresas como a Shein. A varejista chinesa foi avaliada em 16 bilhões de dólares em 2020 e usa algoritmos para captar quais são os tipos de roupas que o consumidor está mais propenso a comprar. A partir desses dados, a sua grande equipe de designers e costureiras desenvolve as peças em tempo real.

O Fast fashion surgiu nos anos 70 como uma estratégia do mercado têxtil estadunidense para superar os prejuízos financeiros provocados pela crise do petróleo. Essa tática foi pautada em observar quais eram as tendências das grifes e da mídia e reproduzi-las em grande quantidade, o mais rápido possível e com materiais baratos para criar e acompanhar a demanda dos consumidores. Ao passar dos anos e com a intensificação da globalização capitalista, o sistema tomou proporções gigantescas em capital, popularidade e consequências.

Ainda que frequentes, os episódios envolvendo fornecedores e a cadeia produtiva do fast fashion na imprensa não eram divulgados de forma relevante até pouco tempo atrás, restringindo-se a manifestações pontuais de ativistas e ao espaço acadêmico. O primeiro caso de grande proporção midiática ocorreu em 2013. A tragédia do Rana Plaza, um edifício que abrigava fábricas têxteis independentes com cerca de 5 mil trabalhadoras que produziam roupas para marcas como Zara, Primark e Walmart. A situação estava tão precária que o prédio desabou, resultando na morte de 1.127 pessoas. Tal escândalo foi inspiração para o documentário “The True Cost” (2015) e tornou os olhos da grande mídia mais atentos aos impactos negativos da indústria da moda em diferentes frentes


A escassez de denúncias ao Fast Fashion na imprensa é atribuída, parcialmente, à autoridade dos anunciantes sobre os veículos de comunicação, os quais, muitas vezes, são as próprias holdings e marcas de moda, o que pode acabar gerando um conflito de interesses. Segundo Bruno Costa, jornalista da Vogue Brasil, há um balanço entre a influência dos anunciantes e o compromisso com o público:

“Nos veículos de imprensa, o principal cliente é o anunciante, mas existe um código de ética a ser seguido. A gente não pode se eximir e eximir o leitor do acesso à informação. Quando ocorre algum conflito com um anunciante, acaba não estando na nossa alçada, mas dos ‘grandes’. Mesmo assim, eu preciso ter um compromisso ético de contar para as pessoas o que está realmente acontecendo ali e honrar com a minha função social como jornalista e nós somos muito cobrados nisso pelos editores, pelo público e até pelos outros anunciantes.”

Bruno Costa ainda completa que a relevância dessa massa de denúncias, principalmente pelas gerações mais novas, pode provocar redirecionamentos nos negócios de Moda. Isso porque as redes de varejo passaram a se preocupar com os prejuízos econômicos que podem derivar desses movimentos. A crítica, dessa forma, serve como um filtro tanto para o consumidor quanto para a esfera corporativa.

Em contrapartida, dentro do próprio âmbito da moda e dos consumidores há apontamentos de falhas no discurso contra o Fast Fashion. Essas inconsistências estão relacionadas à falta de perspectiva interseccional ao condenar o consumo em lojas de departamento, como recortes financeiros e de parcelas da sociedade que, frequentemente, não são atendidas pela cartela comercial do Slow Fashion.


Um ponto levantado pelo debate acerca do alcance do Slow Fashion é a acessibilidade aos produtos. Por serem, majoritariamente, feitos por designers independentes orientados pelos ideais do consumo consciente, eles tendem a ter um preço e características equivalentes aos meios de produção desse modelo. Qualidade maior, tecidos recicláveis, quantidade reduzida e processo desacelerado e independente. Por conta desses fatores, o valor da peça é agregado, encarecendo o produto em comparação com os vendidos nas grandes lojas, e a variedade de tamanhos e formas tende a ser menor.

Enquete e infografia: Júlia Barbosa





Para a editora de Moda Julianna Magdalena, o discurso sobre o consumo de produtos procedentes do Fast Fashion precisa ser mais aprofundado:

“A crítica ao fast fashion é, sim, pertinente no momento que se fala de uma cadeia de produção antiquada e ruim para a sociedade, porém, é importante normalizar o discurso de que há um outro lado. Quando a gente se posiciona a favor de uma moda socialmente e ecologicamente sustentável para o planeta, é preciso incluir todo mundo que vive nele. Com pluralidade de corpos, pessoas com deficiência e de uma forma acessível que, muitas vezes, você não vai encontrar no Slow Fashion”.




0 comentários: