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O que muda nas escolas com a chegada do Novo Ensino Médio?

Apesar de prevista para 2022, a implantação dos novos currículos ainda é uma incógnita para muitos alunos. Para profissionais, as mudanças não foram suficientemente discutidas.

Por Taís Aparecida


 FatCamera/iStock


O Novo Ensino Médio está previsto para começar a ser implementado em todo país em 2022, mas, apesar disso, muitos estudantes ainda não sabem que impactos a mudança trará para o dia-a-dia escolar. Emily Lopes Sant'anna, aluna de 17 anos do Colégio Pedro II (CP2) de Realengo, considera que as escolas não têm se organizado para informar a comunidade. "Creio que a maioria dos alunos do atual Ensino Médio [da escola dela] ainda não se informou sobre isso. A falta de comunicação da escola certamente é um dos motivos”.

A desinformação também atinge estudantes da rede particular. Karolina Duarte Adolfo, do Colégio Elite, conta que a escola não explicou aos alunos como será o novo Ensino Médio, situação parecida com a relatada por secundaristas da rede estadual de ensino. Lucas do Prado Ramos, estudante do CE Profª Jeannette de Souza Coelho Mannarino, afirma que em nenhum momento sua escola falou sobre o que vai mudar a partir de 2022. Ele diz, ainda, que só ficou sabendo do assunto após uma conversa com a amiga.


Sobre a Reforma do Ensino Médio


O Novo Ensino Médio surgiu em 2017 através de uma Medida Provisória (MP) apresentada pelo governo do ex-presidente Michael Temer, que alterava a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), aprovada no legislativo, se tornando a lei nº 13.415/2017. Dentre as mudanças propostas pela lei estava criação de uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC), lançada em 2018.  

A BNCC diz que "é um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica". Ou seja, a BNCC é um documento obrigatório para todas as fases da educação básica que todos os estados e instituições de ensino devem seguir para implementar seu currículo seguindo as diretrizes e competências que o documento coloca.


Retirado do documento da BNCC.


Com as mudanças, o novo ensino médio passa a ser dividido em dois blocos: a formação geral básica e os itinerários formativos. Na formação básica, em vez de as disciplinas serem dadas individualmente como antes, agora elas serão aglutinadas em núcleos do conhecimento: linguagens e suas tecnologias (português, inglês, educação física, artes), matemática e suas tecnologias, ciências humanas e sociais aplicadas (história, geografia, filosofia e sociologia) e ciências da natureza e suas tecnologias (química, física e biologia).

Já o itinerário formativo seria uma formação para o aluno se aprofundar mais na área que ele quer seguir, sendo cinco opções de aprofundamento: linguagens e suas tecnologias, matemática e suas tecnologias, ciências humanas e sociais aplicadas, ciências da natureza e suas tecnologias e a formação técnica profissional.

A carga horária se divide em 60% para a base comum e 40% para os itinerários formativos, sendo que na base comum serão obrigatórias as disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática nos três anos do Ensino Médio. O conteúdo das outras áreas de conhecimento serão inseridos no currículo de acordo com cada escola ou a partir dos estados,. Nos itinerários formativos as escolas devem oferecer ao menos uma opção, mas caso a escola ofereça mais de um itinerário, o aluno poderá escolher mais de uma opção.

Essa reforma do Ensino Médio se iniciará gradativamente em 2022 sendo oferecido nesse primeiro ano para os alunos da primeira série. Assim, segundo o MEC, até 2024 todas as séries estarão oferecendo o novo Ensino Médio.

A proposta do governo com essas mudanças é criar um modelo de ensino flexível; integrado, com interdisciplinaridade entre as áreas do conhecimento; e autônomo, deixando o aluno livre para decidir o que ele quer seguir. Isso porque eles argumentam que havia muita desistência e desinteresse por parte dos alunos nessa última etapa do ensino básico. E que além disso, o Brasil também vinha tendo um desempenho insatisfatório no PISA e em outros métodos de avaliação internacional.

No Rio de Janeiro, a Secretaria de Estado de Educação (SEEDUC) ainda está em processo de elaboração do currículo do Novo Ensino Médio que valerá para a rede estadual e privada. Mas a rede particular também terá autonomia na implementação de seu próprio currículo, caso assim desejar.

Críticas à Reforma do Ensino Médio


Mesmo que a reforma tenha sido aprovada e comece a entrar em vigor no ano que vem, há muitas críticas e pontos controversos em relação ao novo Ensino Médio. Paulo César Maia de Castro, professor de Sociologia em duas escolas públicas do Rio de Janeiro, enxerga essa mudança de maneira crítica e vê a aglutinação das disciplinas como um empobrecimento do conhecimento e da construção do saber crítico. "O Novo Ensino Médio para mim é uma destruição da educação e daquilo que a gente acredita como educação pública, gratuita e de qualidade. É um esvaziamento de conteúdo e das disciplinas enquanto um corpo de conteúdos e significados".

Paulo Afonso do Prado, regente e orientador educacional de duas escolas em região rural de Itaocara/RJ, percebe essa mudança como uma construção de pessoas apenas para o mercado de trabalho, sem exercitar o pensamento crítico desse aluno. Com a junção das disciplinas em áreas do conhecimento, ele acredita que vai ser impossível abranger todos os conteúdos, então o discente acabará tendo uma formação rasa.

Prado também critica o fato de o Estado do Rio ter começado a discutir tarde a construção do currículo de maneira ampla com os professores, pois, na visão dele, encurtou o tempo de debate e reflexão sobre esse currículo. Mas ele acha interessante a proposta da interdisciplinariedade entre as áreas do conhecimento, porém tem receios em relação a essa implementação na prática.

Além disso, Paulo Prado teme que, com o aumento da carga horária, mais estudantes de escolas públicas com baixos recursos abandonem as salas de aula, e com isso a evasão aumente. Mas para ele, no ponto de vista regional e rural, a possibilidade de criar disciplinas que dialoguem mais com o aquele local em que o estudante vive pode ser um ponto positivo da mudança, pois geraria um maior sentimento de pertencimento.

A secundarista Karolina Duarte, enxerga essa reforma como uma regressão pois, na visão dela, eles vão juntar matérias críticas essenciais para a formação de um indivíduo cidadão e darão mais ênfase em disciplinas mais "práticas", como Matemática e Língua Portuguesa. "Na questão da história você pode entender, por exemplo, o que foi o Apartheid ou por que Rosa Parks fez diferença nos EUA. A diferença dos ideais de Luther King e Malcolm X e como isso se reflete na cultura".

Além disso, ela percebe que essa mudança ocorreu de maneira muito abrupta. "Não dá para você transformar um sistema de anos, que já não é muito bom, em uma coisa completamente diferente sem uma adaptação prévia dos alunos, sem uma formação específica para os professores", opina.

O Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro (SEPE) se pronunciou em abril deste ano contrário ao novo Ensino Médio e também pedindo a revogação da construção do currículo escolar implementado pela SEEDUC. Segundo o SEPE, a implementação dessa matriz curricular feita pelo Estado não teve participação da comunidade escolar, apenas consultas que acabaram sendo limitadas devido às restrições causadas pela pandemia da Covid-19 e também porque boa parte dos alunos não tem acesso à internet. O documento diz ainda que a proposta apresentada é do Governo e não do Estado:

"A manutenção desse cronograma por parte da SEEDUC não leva em consideração o contexto da pandemia no estado do Rio de Janeiro e a necessária participação de professores, estudantes e da comunidade como um todo na reformulação do currículo. As consultas públicas estão sendo realizadas de forma virtual, o que impossibilita o debate e torna o processo apenas burocrático. Exigimos o congelamento da tramitação do documento até que seja feita uma ampla discussão com a sociedade. A Comissão da Educação Básica, bem como o pleno do Conselho, não podem dar encaminhamento a qualquer ação sobre a matriz curricular no sentido de sua regulamentação, tendo em vista que a proposta apresentada ao CEE, é uma proposta de Governo e não de Estado. Não houve participação alguma da sociedade civil em sua construção. É fundamental estabelecer processo democrático para a discussão da Reforma Curricular. O debate tem que chegar em cada escola"

 

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